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terça-feira, julho 14, 2026

Jesus está prestes a voltar!


No passado Domingo terminei uma série de três pregações na nossa Igreja, acerca do sermão profético que Jesus proferiu no Monte das Oliveiras (Marcos 13). Na terceira secção desse sermão (Mc 13:24-37), Jesus afirma que muitos irão vê-lo descer do céu com grande poder e glória. No final da grande aflição que está prestes a acontecer, Jesus voltará e todos O verão (Ap 1:7). 

Jesus garantiu: “passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão” (Mc 13:31). Tudo muda: os impérios, as culturas, as políticas, as pessoas… mas a Palavra de Cristo permanece para sempre. Podemos ter a certeza que tudo o que Jesus prometeu, vai-se cumprir integralmente. As suas palavras são verdadeiras, imutáveis e infalíveis! 

Em vez de firmares a tua vida naquilo que é transitório, como o dinheiro, a casa, o carro, os cursos, o emprego, ou qualquer outra coisa, assenta a tua vida sobre aquilo que não passa: Cristo e as suas poderosas palavras. 

Não sabemos o dia nem a hora, mas temos a certeza de que Jesus vai voltar. A sua segunda vinda está muito próxima. Estás preparado?

segunda-feira, agosto 18, 2025

Ser servido ou servir?


Marcos conta que Jesus vai à frente, decidido. Os seus discípulos vão atrás e estão intrigados e temerosos. Jesus resoluto, os discípulos com medo e apreensivos. Porque que os discípulos estavam apreensivos? Como estavam perto de Jerusalém, estariam com medo da crescente hostilidade dos líderes religiosos judeus? Teriam receio de sofrer e morrer com Jesus? Estariam cansados e confusos? Não sabemos ao certo.

Entretanto, Jesus chama os discípulos e começa a falar-lhes das coisas que estavam prestes a acontecer. O Filho do Homem iria ser entregue aos líderes religiosos, condenado à morte, vão cuspir nele, bater-lhe e matá-lo; mas passados três dias iria ressuscitar! Não era esta a primeira vez que Jesus falava da Sua morte e ressurreição. Anteriormente já O Senhor tinha predito a Sua entrega sacrificial. Esta é a terceira predição clara e detalhada da hora mais dolorosa que Jesus iria padecer. 

Enquanto Jesus falava dos seus sofrimentos e morte, Tiago e João aproximaram-se dele e fizeram um pedido: “Concede-nos que na tua glória nos assentemos, um à tua direita, e outro à tua esquerda." Este solicitação destes dois apóstolos é no mínimo chocante. Jesus a falar da sua hora mais escura e tenebrosa e eles preocupados em assegurarem os melhores lugares no céu? Não só ignoraram os sofrimentos de Jesus, como também a revelação da Sua ressurreição! Esta insensibilidade espiritual, por vezes, também é a nossa. Tantos cristãos insensíveis às necessidades dos outros; sem interesse em orar, ajudar, apoiar. Focados apenas na sua ambição e nos seus desejos egoístas.

Jesus alerta-os para a seriedade do que pediam e pergunta se podiam beber o cálice que Ele ia beber e ser baptizados com o baptismo que ia ser baptizado. O cálice e o baptismo falam dos sofrimentos de Cristo (Mc 14:36 e Lc 12:50). Os discípulos sem saberem bem o que diziam responderam que sim. A paixão de Cristo é única e distinta, mas os apóstolos também iriam sofrer muito. Tiago seria o primeiro deles a ser assassinado por Herodes Agripa I (At 12:1-2). João, talvez não tenha sido martirizado, mas sofreu muito por causa Cristo e do Evangelho, tendo sido desterrado para a ilha de Patmos. 

Jesus esclarece que quem reserva os lugares no céu é somente o Pai. Esses lugares não se conquistam, não são para os que “metem uma cunha a Jesus”, mas para aqueles que Deus escolheu. Os dez apóstolos ouvindo acerca da ambição de Tiago e João ficaram muito indignados. Provavelmente eles também tinham a mesma ambição egoísta de Tiago e João e receavam ficar com lugares menos importantes. Somos iguais! 

No seguimento deste diálogo, Jesus vai explicar como funciona a autoridade no Reino de Deus: o primeiro deve ser servo (literalmente: escravo!). Os líderes deste mundo julgam que ser líder é ser o número um, é ser autoritário, é exercer o poder com mão forte e dominadora. “Entre vós não será assim”, disse Jesus (Mc 10:43). Na igreja, quem quiser ser grande deve ser pequeno. Só aquele que serve está apto para governar. A grandeza no Reino de Deus está em servir a Deus e aos outros. Quem ama muito serve muito. Quem ama pouco, pouco ou nada serve.

Jesus dá exemplo da sua própria vida e missão. Esta passagem começou com a expressão “Filho do Homem” e termina com o “Filho do Homem”. Este título revela a condição humana de servo que Jesus escolher ser. Sendo Deus, “achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte e morte de cruz” (Fp 2:8). Sendo O Senhor de tudo e de todos, Cristo escolheu uma vida de serviço com o propósito de dar a sua vida em resgaste de muitos (Mc 10:45). Estávamos condenados a ficar separados de Deus por toda a eternidade, mas graças ao Senhor Jesus que deu a sua vida em resgate da nossa. A sua morte e ressurreição são a nossa salvação. 


APLICAÇÕES FINAIS 

1. Jesus é o Servo perfeito. Ele viveu uma vida de serviço, morreu e ressuscitou para nos salvar. Ao contrário de tantos líderes religiosos, o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para nos salvar. Se ainda não tens a certeza da salvação, que hoje possas receber Jesus Cristo! 

2. A motivação do serviço cristão deve ser o amor e a humildade, não o elogio humano. Bob Dylan canta que todos estamos a servir alguém. Podemos estar a servir a nós próprios, aos outros, ao diabo, ao Senhor. Todos são servos daquele a quem servem. Sigamos o exemplo de Cristo que serviu sem buscar glória terrena. Se O Senhor Jesus viveu uma vida de Servo, quem somos nós para vivermos como senhores?

3. Servir a Deus e aos outros tem um custo. Implica oração, renúncia, trabalho, provoca cansaço, causa oposição e muitas críticas. Mas também dá alegria plena, paz interior, propósito e a há a promessa de recompensas eternas. 

Ninguém é salvo POR servir a Deus, somos salvos PARA servir a Deus. Esta é uma das grandes diferenças entre um católico romano e um protestante. Não servimos a Deus na igreja e fora da igreja para conquistar a salvação, é porque estamos salvos pela graça de Deus, que servimos dessa forma.

Se já te consideras cristão, estás apenas a ser servido ou estás tu servir?

quinta-feira, julho 24, 2025

Estás a confiar em quem?


Um jovem rico ajoelha-se diante de Jesus e pergunta: "Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?" Jesus diz-lhe: "Por que me chamas bom? Ninguém há bom senão um, que é Deus." Jesus questiona a pergunta do jovem não porque não era bom, mas para despertar a consciência dele. Aquele jovem desconhecia que Jesus era mais do que um bom Mestre. Diante daquele jovem estava O próprio Deus encarnado e O Salvador.

Jesus acrescentou que ele devia guardar os mandamentos. Na sua presunção, o jovem respondeu que fazia isso desde pequeno. O Senhor olhou para ele com olhos de amor e compaixão e disse que lhe faltava uma coisa - vender tudo quanto tinha, dar aos pobres e seguir Jesus. Contrariado, o jovem retirou-se triste porque possuía muitas propriedades.

O jovem rico não seguiu Jesus.  Desprezou Jesus, perdeu a vida eterna. Ganhou este mundo, perdeu a eternidade. Preferiu ir para o inferno do que largar os seus bens. O jovem rico tornou-se o mais pobre de todos os pobres. Ganhou este mundo, perdeu o outro. 

Então, Jesus, olhando agora para os seus discípulos exclamou: "Quão dificilmente entrarão no Reino de Deus os que têm riquezas!" Isto não significa que os ricos não podem ser salvos ou que só os pobres é que podem entrar no Reino de Deus. Nada disso. O grande alvo de Jesus não é melhorar a vida de pessoas na terra, é levá-las ao céu. Jesus está a afirmar que os que têm riquezas têm uma dificuldade ainda maior para entrar no Reino celestial. 

Os discípulos admiraram-se muito com aquelas palavras de Jesus. Porquê? Os judeus acreditavam que a prosperidade era um sinal do favor divino e que um homem próspero era um homem que merecia o Reino de Deus. Hoje alguns evangélicos ainda acreditam nisso. Jesus explica melhor: “Filhos, quão difícil é, para os que confiam nas riquezas, entrar no Reino de Deus!” O problema não estava em ter riquezas, mas em depositar a confiança nas riquezas. Ao contrário do que os judeus pensavam, as riquezas não facilitam a entrada no reino de Deus. Dificultam ainda mais! Os que confiam nas riquezas fazem do dinheiro o seu deus (Mamom) e por isso não confiam no verdadeiro Deus.

Para ilustrar esta impossibilidade de alguém que confia nas riquezas ser salvo, Jesus diz “É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de Deus.” Alguns dizem que a agulha era uma porta pequena que existia na muralha em Jerusalém e que os camelos tinham dificuldade em passar. Mas isto é uma lenda inventada no século IX. A maioria dos estudiosos rejeita essa explicação, porque não há evidência histórica ou arqueológica de que existisse tal porta em Jerusalém. Jesus usa esta hipérbole para reforçar a impossibilidade de um pecador alcançar a salvação por si próprio.

Os discípulos de Jesus, ainda ficaram mais intrigados: “Quem poderá, pois, salvar-se?” Jesus olhou para eles e respondeu: “Para os homens é impossível, mas não para Deus, porque para Deus todas as coisas são possíveis.” A conversão de um pecador é uma obra sobrenatural de Deus. É milagre do Espírito Santo. Ninguém pode salvar-se a si mesmo. Ninguém pode nascer de novo por si mesmo. Sim, a salvação é impossível para o homem, mas louvado seja o Senhor, porque para Deus, todas as coisas são possíveis. A graça de Deus pode alcançar e salvar o pior dos pecadores! Deus até pode salvar um bilionário idólatra que se arrependa e creia que Jesus Cristo é o único Salvador e Senhor. 

Considerando estas palavras de Jesus, Pedro pergunta: “Eis que nós tudo deixamos e te seguimos, o que receberemos?” (Mt 19:27). O jovem rico não seguiu Jesus, mas o que dizer daqueles que largam tudo e seguem Jesus como os doze Apóstolos e outros discípulos? O Senhor prometeu que esses receberão cem vezes mais do que tinham. A promessa é presente e futura. Mas também enfrentarão “perseguições”. Conforme disse Paulo a Timóteo: "Todos aqueles que querem viver uma vida dedicada a Cristo Jesus serão perseguidos" (2Tm 3:12 - VFL). Mas a maior de todas as dádivas, é que o seguidor de Jesus receberá no século vindouro a vida eterna, por causa da graça de Deus.

“Muitos primeiros serão derradeiros, e muitos derradeiros serão primeiros”, conclui Jesus. No Reino de Deus a lógica é diferente: muitos que são ricos e poderosos neste mundo serão desprezados, e muitos que são ignorados e nada tiveram aqui, serão primeiros no Reino de Deus. Aqueles que parecem ser os “primeiros” - os ricos, poderosos, religiosos de aparência, influentes - ficarão excluídos e desprezados por Deus. E os “últimos” - os pecadores arrependidos, os cristãos que por vezes são desprezados e ignorados por todos - serão elevados e colocados em lugares de honra. 


QUATRO APLICAÇÕES 

1. Confiar nas riquezas é uma loucura. Jesus contou uma história, em Lucas 12 de um homem rico que teve uma colheita farta e armazenou tudo em celeiros novos. Ele disse a si mesmo: “Armazenaste o bastante para os anos futuros, agora, repousa, come, bebe e diverte-te!”  Mas Deus disse-lhe: “Louco! Esta noite te pedirão a tua alma e o que preparaste, para quem será?” As riquezas são incertas, passageiras e incapazes de salvar a alma. Não garantem o futuro, nem protegem da morte e do juízo eterno. Pv 11:28 diz “Aquele que confia nas suas riquezas cairá.” Confiar nas riquezas é a grande loucura desta vida, porque quem confia nas riquezas não pode confiar em Deus. 

2. Confiar em Deus é melhor do que as maiores riquezas desta vida. Ao contrário do dinheiro e das riquezas, Deus é eterno, poderoso, dá segurança real e vida eterna. “Fujam do amor ao dinheiro; contentem-se com o que têm, porque Deus disse: ‘Não te deixarei, nem te abandonarei.’” Hb 13:5 [OL].

3. É impossível ao homem salvar-se a si mesmo. “Para os homens é impossível, mas não para Deus, porque para Deus todas as coisas são possíveis.” A salvação é algo sobrenatural que transcende o esforço humano. Só Deus, através da sua graça, nos pode dar fé para crer na salvação de Jesus. 

4. Seguir Jesus Cristo compensa. Quem deixa tudo por amor a Cristo será recompensado, nesta vida e na eterna. O objectivo do discipulado não é receber recompensa. Não servimos a Deus por aquilo que Ele dá, mas por quem Ele é. 


A grande pergunta a que tens que responder é: Em quem estás tu a confiar?

quarta-feira, junho 25, 2025

Jesus abençoa as crianças


Depois de ter ensinado acerca da importância do casamento, Jesus agora vai falar dos filhos. Na cultura grega e judaica, as crianças não tinham o devido valor que têm hoje. O texto bíblico de Marcos é curto e conciso. Com Jesus aprendemos que não é preciso fazer longos discursos para transmitir verdades muito profundas.  

Surgem quatro tipos de pessoas nesta passagem: as crianças; os que trazem crianças a Jesus; os que impedem as crianças de irem a Jesus e Aquele que abençoa as crianças. As crianças seriam pequenas, talvez alguns bebés. Os que levam crianças a Jesus são facilitadores. Os pais são os primeiros responsáveis, mas cada cristão tem a obrigação de trazer pessoas a Cristo. Foram os discípulos de Jesus que impediram as crianças de irem até Ele. É triste constatar que por vezes somos nós os obstáculos das pessoas irem a Cristo. Aquele que abençoa as crianças é Jesus. As crianças eram desprezadas e ignoradas, Cristo sempre valorizou e abençoou os esquecidos e excluídos. As crianças também.

Mateus 19:13 diz que lhe trouxeram crianças “para que lhes impusesse as mãos e orasse”. A bênção das crianças era normal no judaísmo. Pedir a bênção dos pais era um costume em Portugal. Hoje é coisa rara. A recusa dos discípulos de Jesus seria talvez por pensarem que Jesus não queria ser incomodado e que as crianças não eram dignas de estar com O Senhor. Queriam controlar a agenda do Mestre. Jesus é Senhor e tem sempre tempo para acolher e abençoar quem vem a Ele.  

Marcos relata que Jesus indignou-se com esta atitude dos discípulos. Não foi esta a única vez que Jesus se indignou. A hipocrisia, a dureza de coração, o desprezo pelos mais pequenos, as negociatas da fé, o pecado, indignam Jesus. “Deixai vir os pequeninos a mim” disse Jesus (Mc 9:14). Levar os pequeninos a Jesus é a coisa mais maravilhosa que podemos fazer. O ministério com crianças numa igreja local é importantíssimo. Que nenhum cristão cometa a loucura de afastar uma criança de Cristo e da sua salvação. Tantas vezes a nossa indiferença, mau exemplo, falta de ensino espiritual, superioridade de adulto, são barreiras que impedem as crianças de irem a Jesus.  


“Porque dos tais é o reino de Deus” (Mc 9:14). Embora existam várias interpretações desta frase de Jesus, existem alguns princípios a considerar:  

1. Todas as crianças nascem em pecado e são pecadoras. Davi disse: “Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe” (Sl 51:5). 

2. Os bebés e as crianças que morrem antes da idade da consciência, são salvas por meio da graça de Deus e por causa da obra redentora de Cristo (2Sm 12:23). O sangue de Jesus cobre as suas iniquidades.

3. Depois de ter consciência do seu pecado, toda a criança precisa arrepender-se, crer em Jesus como seu Salvador e aceitar o sacrifício de Cristo para ser salva (2Tm 3:15).
 

Jesus acrescenta que para alguém entrar no reino de Deus tem de o receber como uma criança. O Reino de Deus não é conquistado, é recebido. A vida eterna é um presente divino, não um prémio de bom comportamento. Receber o Reino de Deus como criança não é ser infantil ou imaturo espiritualmente. Não é ser inocente e nem dar crédito a qualquer doutrina ou pregador. Significa depender de Cristo. É sentir-se indigno do Reino para lá entrar, porque é somente pela graça de Deus que se entra. É confiar inteiramente nas mãos do Pai e Jesus.  

A passagem termina com Jesus a tomar nos seus braços aquelas crianças, a impor-lhes as mãos e a abençoá-las. Que coisa maravilhosa! Embora não exista nenhum versículo na Bíblia que diga explicitamente que Jesus sorriu, é difícil imaginar esta cena sem Jesus estar a sorrir para aquelas crianças.

Jesus valorizou muito as crianças. Que nós também possamos orar, cuidar e abençoar as crianças. Que sejas mais um facilitador e um abençoador do um dificultador. Não atrapalhes as pessoas de se chegarem a Jesus. Falemos de Jesus e da sua salvação aos nossos filhos, netos, bisnetos. Oremos e trabalhemos pela evangelização das crianças em Portugal. Jesus continua a querer salvar e a abençoar hoje todo aquele o Pai o enviar a Ele. Todos precisam ir a Jesus e receber a Sua salvação.  

“Tudo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora.” João 6:37.

terça-feira, junho 03, 2025

Casamento, divórcio e recasamento


Lemos no Evangelho segundo Marcos que Jesus está na Pereia, do lado leste do rio Jordão, onde João Baptista baptizava. O objectivo é ir a Jerusalém e lá ser morto. Faltam cerca de seis meses. Uma multidão continua a procurar Jesus e O Senhor faz aquilo que sempre fez no seu ministério terreno: ensinava. Ensinar sobre questões tão importantes como o casamento, divórcio e novo casamento.

Aproximaram-se de Jesus os fariseus para lhe fazerem uma pergunta: “É permitido ao homem divorciar-se da sua mulher?” (NVI). Jesus já tinha falado destes assuntos no Sermão do Monte e eles devem ter ficado muito perturbados. A pergunta deles era uma armadilha maldosa. João Baptista foi preso e morto por denunciar o pecado de adultério de Herodes Antipas. Desejavam que Jesus tivesse o mesmo fim.

Jesus responde fazendo outra pergunta: “O que Moisés disse na lei a respeito do divórcio?” Eles disseram que Moisés permitiu dar a carta de divórcio, aludindo a Deuteronómio 24:1. No tempo de Jesus existiam duas escolas judaicas que interpretavam a questão do divórcio: Hillel e Shammai. A escola de Hillel aceitava o divórcio por qualquer motivo, a de Shammai permitia o divórcio apenas por imoralidade sexual. É claro que aquela que predominava era a escola liberal de Hillel. O “vale tudo” sempre foi muito popular e atractivo para o ser humano caído.  

Jesus esclarece que Moisés permitiu o divórcio por causa da dureza do coração humano. O divórcio existia por causa da condição espiritual pecaminosa do homem. Foi para regular e controlar o divórcio, não para o promover que a Lei previa o divórcio. Em Malaquias 2:16 lemos que: “O Senhor, Deus de Israel, odeia o divórcio.” A vontade do Senhor para o casamento não é e nunca foi o divórcio. Toda a quebra de relacionamento tem origem num coração endurecido pelo pecado. Os fariseus queriam falar sobre divórcio, mas Jesus vai realçar a importância do casamento.  

O Senhor vai à origem das coisas. Foi Deus que realizou literalmente o primeiro casamento no mundo, entre Adão e Eva (Gn 1:27; 2:24). O casamento implica deixar os pais para formar uma nova unidade. Já não são dois, mas uma só carne. “Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem”, conclui Jesus. O casamento é mais do que um ajuntamento amoroso, emocional, físico ou sexual, é algo espiritual – “Deus ajuntou”. Nenhuma pessoa tem o direito de separar o que Deus uniu. Enquanto um dos cônjuges for vivo, o casamento é uma aliança divina permanente.  

Hoje anda muita gente a brincar “ao casa descasa” mas essa não é a vontade de Deus. Jesus foi tão peremptório nesta matéria, que os discípulos, quando chegaram a casa tornaram a interrogá-lo. Jesus clarificou: “Qualquer que deixar a sua mulher e casar com outra adultera contra ela. E, se a mulher deixar a seu marido e casar com outro, adultera.” – Mc 10:11-12. Jesus esclarece aqui de forma inequívoca que se alguém casar novamente comete adultério.  

É verdade que em Mateus 19:9 Jesus falou de uma cláusula de excepção para o divórcio. Se um dos cônjuges for infiel sexualmente, e não existir perdão, o divórcio é permitido. Mas conforme alegou Russell Shedd “O divórcio jamais contou com a aprovação divina, a não ser como o menor entre dois males”. Também nessa passagem, Jesus reforça a impossibilidade do recasamento porque quem casa com o divorciado comete adultério (Mt 19:9b). Paulo escreveu “aos casados, mando, não eu, mas o Senhor, que a mulher se não aparte do marido. Se, porém, se apartar, que fique sem casar ou que se reconcilie com o marido; e que o marido não deixe a mulher.” (1Co 7:10-11).  


4 princípios relativos ao casamento   

1º. Deus planeou o casamento entre um homem e uma mulher, para juntos glorificarem ao Senhor Deus e encherem a terra com a Sua glória. 1Co 10:31 – “Quer comais, quer bebais ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para a glória de Deus.” John Stott escreceu que “O significado mais elevado e o propósito mais sublime do casamento é o de manifestar a relação pactual entre Cristo e sua igreja.”  

2º. Um cristão deve namorar e casar com outra pessoa cristã e dentro da vontade do Senhor. “Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis; porque que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas? E que concórdia há entre Cristo e Belial? Ou que parte tem o fiel com o infiel?” 2Co 6:14-15. Um casamento com alguém que não ama e segue o Senhor pode transformar-se numa tragédia. Os viúvos estão livres para casar, mas “contanto que seja no Senhor” (1Co 7:39). O casamento deve ser segundo a vontade de Deus.

3º. O casamento é uma ligação maravilhosa mas também pode-se tornar o pior dos relacionamentos. Sozinho ninguém consegue manter o seu casamento. Precisa de Deus. É Ele que faz com que o casamento resista e permaneça. Casamento implica amor, perdão, diálogo, respeito mútuo, perder a razão muitas vezes. “Vós, mulheres, sujeitai-vos a vosso marido, como ao Senhor … Vós, maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela.” (Ef 5:22;25).

4º. O casamento é um compromisso espiritual, moral e civil entre marido e mulher até à morte de um dos cônjuges. É uma ligação tão forte que só a morte a pode desintegrar. “A mulher casada está ligada pela lei todo o tempo que o seu marido vive; mas, se falecer o seu marido, fica livre para casar com quem quiser, contanto que seja no Senhor.” – 1Co 7:39.  


É importante também referir que o adultério, o divórcio e os pecados sexuais separam as pessoas de Deus, mas não são pecados imperdoáveis. Jesus morreu por esses pecados. Em Deus há perdão e restauração. Cada caso é um caso e compete às lideranças das igrejas decidir a integração, lembrando sempre que cada um dará contas a Deus dos seus pecados.   

Paulo reconhece que a igreja era composta por pessoas com passados complicados, incluindo imoralidade sexual e adultério. Mas foram lavadas, santificadas e justificadas em Cristo. Isso mostra que a igreja é um lugar de restauração - 1Co 6:9-11. A graça restauradora de Deus é maior do que o maior pecador e os piores pecados - Rm 5:15,20; Sl 103:10-12.  

Que Deus ajude os casados a valorizarem o seu casamento. A orarem todos os dias um com o outro e um pelo outro. Que Deus guarde e abençoe os casamentos e as famílias.

segunda-feira, maio 05, 2025

Dos escândalos


Em Marcos 9 Jesus vai alerta-nos para dois tipos de erros: o erro do exclusivismo e o erro da falta de santificação. Na verdade, são dois tipos de escândalos, o escândalo de um cristão ficar ressentido por outra pessoa estar a anunciar Jesus e o escândalo do cristão pensar que pode ser cristão sem viver em santidade. Para nossa vergonha temos que admitir que há muitos escândalos no meio evangélico hoje.

O Apóstolo João vai contar a Jesus a façanha dos discípulos, que proibiram um homem que estava a expulsar demónios em nome de Jesus, mas que não andava com eles. João imaginou que o poder de Jesus estava confinado ao grupo dos discípulos. O sectário João não aceitava pessoas fora do seu círculo. Este discípulo que disse este disparate, era o que reclinava a sua cabeça no peito de Jesus em sinal de profunda comunhão. Por vezes nós também pensamos que estamos a dizer uma grande coisa, mas não passam de afirmações egoístas e descabidas.

Jesus informou os discípulos que não há quem faça milagres usando o seu nome e a seguir vá falar mal dele. Cuidado com a exclusividade que alguns crentes, pastores, igrejas e denominações pensam que têm. O Reino de Deus é muito mais amplo do que a nossa igreja, movimento ou grupo. “Quem não é contra nós é por nós”, afirmou Jesus (Mc 9:40). A pessoa até pode não ter total clareza doutrinária, mas se crê em Jesus, não vai ser contra Ele e por isso O Senhor não reprova essa pessoa. Se O Cristo que outros pregam é o da Bíblia, mesmo não estando connosco, essas pessoas estão também do nosso lado, que é o de Cristo. 

Por outro lado, Jesus não está a defender que todas as crenças e religiões são boas e que não importa o que faz ou ensina. O universalismo é falso e o ecumenismo é um caminho errado. Em outra ocasião Jesus também disse que “Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta espalha.” (Mt 12:30). A questão é se a pessoa está em Cristo e se anuncia a Cristo. As pessoas ou são por Cristo ou contra Cristo. Até dar um copo com água, em nome do Senhor, terá recompensa! 

Se nos primeiros versos há cristãos escandalizados, nos seguintes há cristãos que escandalizam. Escandalizar “pequeninos”, pode ser afastar as crianças ou os mais novos na fé, de Cristo. Talvez o tal homem que expulsava demónios fosse um novo convertido. Jesus disse que o cristão que escandaliza esses pequeninos, melhor seria pegar numa pedra de moinho e ser lançado ao mar. Esta hipérbole de Jesus é para demonstrar as sérias consequências dos escândalos na vida do crente. Ao contrário do que alguns evangélicos julgam, ser cristão não é uma carta branca para se viver de qualquer maneira. Ser cristão implica viver em santidade e em obediência a Deus, sem conduta escandalosa. 

Jesus usa três imagens para advertir sobre as terríveis consequências de alguém viver de forma escandalosa. É melhor cortar a mão, um pé ou arrancar um olho que escandaliza do que ser lançado no inferno. É óbvio que esta é uma linguagem figurada que Jesus. O Senhor não está a ensinar que a pessoa deve mutilar os seus membros ou fustigar o corpo. Isto significa que se há algo na vida que escandaliza, o melhor é “cortar o mal pela raiz.”

O inferno é um lugar de tormento eterno onde também “o bicho não morre e o fogo não se apaga”. Há igrejas que só falam em inferno e há outras que parece que nem sabem que existe. Jesus falou muito sobre o inferno. O inferno é real e a pessoa que for lançada no inferno sofrerá eternamente. O termo grego para inferno aqui é “geena”. Geena está relacionado ao vale de Hinom, que ficava fora da cidade de Jerusalém. Foi aí que o Rei Acaz e o Rei Manassés sacrificaram os próprios filhos (2Cr 28:3; 33:6). Era um lugar de culto a Moloque. Mais tarde, o Rei Josias acabou com essas práticas e o Vale de Himom no tempo de Jesus estava transformado num monturo de lixos, onde existia uma fogueira que ardia sem cessar. É um lugar terrível preparado para todos os que não crêem em Jesus e na sua salvação. 

O discípulo de Jesus deve mostrar tolerância com os outros e ser rigoroso consigo próprio. Por vezes somos muito inflexíveis com os erros dos outros e muito tolerantes com as nossas próprias fraquezas e pecados. Esta tolerância, contudo, não é a permissão para aceitarmos falsos ensinos ou falsos profetas, antes, para entendermos que quem anuncia a Cristo também está do nosso lado. 

Quem não receber Jesus como seu Salvador e Senhor já está condenado ao inferno. “Aquele que crê no Filho tem a vida eterna, mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece.” João 3:36. Todo aquele que crer em Jesus e aceitar a sua salvação terá morada eterna num lugar de alegria, descanso, onde não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro e nem dor (Ap 21:4).

sábado, março 22, 2025

Jesus é o Maior!


A seguir a Jesus ter expulsado o demónio daquele jovem que o fazia surdo e mudo, Marcos conta que Jesus prossegue para Cafarnaum com os seus discípulos. Enquanto caminhavam, Jesus falou-lhes, mais uma vez, da sua morte e ressurreição. Os discípulos, além de não entenderem nada, ficaram com medo de perguntar o que aquilo significava. Esta dificuldade em entender o propósito redentor do Messias é desconcertante. Explica-se, em parte, pela expectativa judaica de que o Messias seria um libertador político, não um Cristo crucificado. Infelizmente esta incompreensão continua também nos nossos dias, nas pessoas a quem falamos da morte redentora de Jesus e tantos ainda nada entendem.

Chegados a Cafarnaum, Jesus faz-lhes uma pergunta: “O que vocês estavam a discutir no caminho?" Já vimos que quando Jesus faz perguntas não é para saber ou aprender algo, porque Jesus é Deus e sabe todas as coisas. As inquirições de Jesus, normalmente, servem para esclarecer dúvidas que precisam primeiro ser verbalizadas. Os discípulos nada responderam. Era o silêncio dos culpados. O assunto deles era demasiado comprometedor para o exporem a Jesus. 

Marcos informa-nos que a discussão dos discípulos era sobre qual deles seria o maior. Qual deles era o mais importante. Há aqui um contraste dilacerante entre Jesus estar a dizer que ia à cruz morrer, enquanto os discípulos discutiam entre eles quem era o melhor. O Senhor falava do momento mais importante da história do universo e as mentes dos apóstolos estavam ocupadas com desejos egoístas de grandeza pessoal.

Então, Jesus senta-se, chama os doze apóstolos e diz-lhes: “Se alguém quiser ser o primeiro, será o derradeiro de todos e o servo de todos.” No ensino de Jesus, se alguém quiser ser alguma coisa, deve aprender a servir os outros, dispondo-se a ser o último de todos. Para reforçar a lição, Jesus tomou uma criança nos braços e disse que quem receber uma criança em seu nome recebe-o a Ele. No mundo antigo, as crianças não tinham valor, eram desprezadas e ignoradas. Esta criança representa os esquecidos, os excluídos, os ignorados, os que não consideramos importantes. Jesus mostrou que o "maior" no Reino de Deus é aquele que ama, serve e ajuda quem precisa, assim como Cristo fez. 

Jesus é o maior exemplo de humildade e serviço. A maior prova de humildade que Jesus deu foi que, sendo Deus, sendo o criador do universo, Ele fez-se homem e como homem tornou-se servo. Sendo servo, Ele escolheu morrer numa morte horrível e vergonhosa, numa cruz. Em vez de querermos ser nós os mais importantes, confiemos naquele que é o Maior: Jesus Cristo. Ele foi o único que morreu e ressuscitou pelos nossos pecados (1Pedro 3:18). 

Quando tratamos bem as pessoas, quando valorizamos quem não é valorizado, quando amamos os outros, estamos a servir Jesus e o Pai. A ambição desmedida e o egoísmo fazem parte da nossa natureza humana caída. Ninguém pensa que é orgulhoso e arrogante ou altivo. Todos pensam que são humildes. A verdade é que todos queremos ser os maiores. Os mais importantes. 

A verdadeira grandeza não está em buscar posições ou cargos, mas no serviço simples e fiel a Deus e aos outros. Devemos servir com humildade, sem esperar elogios ou reconhecimento. Humildade não é pensar pouco sobre si, é pensar e agir como Jesus pensou e agiu. E Jesus, sendo O Senhor de tudo, viveu como servo humilde. Os líderes são chamados a liderar pelo exemplo, demonstrando amor e cuidado pelas pessoas ao seu redor (1Pedro 5:3). 

Devemos acolher os mais vulneráveis. A Igreja deve ser um lugar de acolhimento e abrigo. Que Deus nos ajude a cuidar daqueles que a sociedade despreza, como os órfãos, idosos, pobres e todos os excluídos. Que possamos tratar a todos com amor e respeito, independentemente da posição social. Partilhemos a fé em Cristo com todos, porque essa é a maior ajuda que podemos dar. Que possamos entender que só há um maior, é Jesus Cristo, porque de facto Jesus é mesmo o Maior!

quarta-feira, março 05, 2025

Fé em Jesus que tudo pode


Depois de Jesus ter mostrado a sua glória no monte voltou ao encontro dos outros nove discípulos que tinham ficado no vale. O contraste entre estes dois momentos é chocante. Passamos da gloriosa transfiguração de Jesus no monte, para a terrível possessão demoníaca no vale. Da voz doce do Pai que nos manda ouvir Jesus, para a voz muda de um menino amordaçado pelo diabo. Da paz para a confusão. Da luz para as trevas. 

Sim, os momentos celestiais com Deus “no monte” são maravilhosos, mas a vida do cristão é também a vida com Deus “no vale”. Somos chamados a estar no meio de gente oprimida, irritada, confusa e desalentada. O crente não é para ficar enclausurado na tenda do monte, é para caminhar com fé no tumulto do vale. Esta história não é só sobre a cura espiritual, é principalmente sobre a urgência de colocarmos a fé no poderoso Jesus.

A multidão agitada rodeava os discípulos. Os escribas discutiam com eles. No meio daquele alvoroço, Jesus é interrompido pelo pai de um menino que estava possesso por um demónio. O pai ajoelha-se diante de Jesus. Descreve o sofrimento do seu filho e lamenta que os discípulos de Jesus não tenham conseguido expulsar o demónio.

"Ó geração incrédula! Até quando estarei convosco? Até quando vos sofrerei ainda?" Lamentou Jesus. Tantos milagres e maravilhas que O Senhor já tinha feito e ainda tanta incredulidade latente, da parte da multidão e dos discípulos. Até quando? A incredulidade indigna Deus. O povo de Israel não entrou na terra prometida por causa da sua incredulidade (Hb 3:19). Aquilo que leva as pessoas ao inferno é continuarem no estado de descrença. “Sem fé é impossível agradar a Deus” (Hb 11:6).

"Trazei-mo!" disse Jesus. Levar pessoas a Jesus continua a ser a grande missão de cada cristão. Jesus transforma vidas! Possamos ser pais que levam os filhos a Jesus. Quando o jovem se aproximou de Jesus, o espírito agitou-o com violência. Os demónios conhecem Jesus e estremecem diante dele. Jesus perguntou ao pai há quanto isto lhe sucedia. Ele respondeu que desde a infância do menino. O objectivo do diabo é destruir a vida das crianças, dos jovens, das famílias.

Aquele pai rogou a Jesus que se Ele pudesse fazer alguma coisa que fizesse algo. Jesus respondeu: “Se tu podes crer! Porque tudo é possível ao que crê!” Em outras palavras, Jesus estava a dizer que a questão não era se Jesus podia, mas se o pai acreditava no Jesus que tudo pode. A dúvida, a incerteza e a falta de poder nunca estão do lado de Deus, estão sempre do nosso lado! Jesus é o Deus encarnado e Ele pode tudo! “Para Deus todas as coisas são possíveis” (Mc 10:27). 

Com lágrimas nos olhos, o pai exclamou: “Eu creio, Senhor! Ajuda-me na minha incredulidade.” Aquele pai tinha a consciência sincera da sua pequena e vacilante fé. Jesus não repreendeu esta afirmação. Conhecer-se incapaz diante do autor da fé é o grande milagre da fé. Jesus então repreendeu o espírito e disse: “Espírito mudo e surdo, eu te ordeno: sai dele e não entres mais nele.” O demónio reagiu mas logo saiu. O menino ficou como morto. Estava em paz. Só Jesus dá paz. Jesus soergueu-o. Tantas pessoas que não nos levantam, Jesus dá-nos a mão.

Já em casa, os discípulos perguntaram a Jesus porque é que não puderam expulsar aquele demónio. Jesus disse que aquela casta, aquele tipo de demónios, somente sai com pessoas que vivem na intimidade e na dependência de Deus. Valorizamos muito as actividades e eventos mas Jesus aqui realçou a necessidade de orar e jejuar. Dependemos de Deus em todos momentos. Mateus amplia a resposta de Jesus e esclarece que o problema dos discípulos foi a falta de fé (Mt 17:19-21). 


Quatro aplicações finais

1. Vivemos num mundo espiritual. Satanás e os demónios continuam a tentar destruir as pessoas. O diabo usa tudo o que pode para destruir vidas. Provoca doenças, males, vícios, pecados. O maior alvo do diabo é impedir que a pessoa creia em Jesus como seu Salvador e Senhor. 

2. Deus detesta a incredulidade. Aquilo que impediu os discípulos de curarem aquele rapaz foi a sua falta de fé em Deus. A incredulidade não é só a falta de fé para acreditar que Deus existe, é a desconfiança que quem Deus é e daquilo que Ele pode fazer. 

3. Sem oração não há poder espiritual. Não conseguimos viver a vida espiritual na nossa força. Sem oração tudo vai fracassar. Tudo se torna possível para aquele que crê e confia em Jesus que tem todo o poder.

4. Precisamos ir a Jesus e confiar nele. Jesus é o único Salvador. Deposita a tua fé em Jesus, porque Ele é quem que te pode salvar e libertar. “A fé vem pelo ouvir, e ouvir a palavra de Deus.” (Rm 10:17). Crê na poderosa Palavra de Deus. Crê em Jesus. Ele pode tudo.

quarta-feira, fevereiro 19, 2025

Os três nãos de Deus

Uma das vantagens de se ler livros que ainda não foram publicados em Portugal é comprar no formato ebook. O meu amigo Tiago Cavaco volta aos livros e, na sua deliciosa escrita agridoce, amplia um sermão seu: "Os três nãos de Deus". O livro é editado pela Editora Mundo Cristão e o prólogo e o primeiro capítulo já me convenceram.

Na meio de tantos "sins" a tudo e mais alguma coisa, é bom existir alguém a lembrar-nos que Deus também diz não. Três vezes.

"O que sossega os nossos corações não é uma materialização da presença de Deus mas uma segurança de que, guiados pelas promessas da sua palavra cumprida em Cristo, até na ausência somos por ele acompanhados — até nos nãos podemos ouvir um sim." 

- Tiago Cavaco, "Os três nãos de Deus: Porque apenas a graça basta", Editora Mundo Cristão, 2025.

quarta-feira, fevereiro 05, 2025

A gloriosa transfiguração de Jesus

Jesus levou Pedro, Tiago e João para orarem num monte. Em diversas ocasiões, durante o seu ministério, Jesus chama este trio de discípulos para estar mais perto dele. Não compreendemos porque é que Jesus escolhe uns e outros não, mas aceitamos que O Senhor é soberano. Ele sabe bem o que faz e com quem quer fazer. Sempre.

No cimo desse monte Jesus transfigurou-se diante deles. As vestes de Jesus ficaram resplandecentes e mais brancas do que a neve. Por alguns instantes, o véu da humanidade de Jesus foi destapado e eles viram o esplendor da glória celestial do Senhor. Mateus diz que o rosto de Jesus resplandeceu como o sol. No Monte Sinai o rosto de Moisés resplandecia por ter estado na presença de Deus, aqui, o rosto de Jesus resplandecia porque Ele próprio era essa glória refulgente.

Entretanto, apareceram Elias e Moisés que falavam com Jesus. Lucas esclarece que eles falavam da morte de Jesus que estava prestes a acontecer em Jerusalém (Lc 9:30-31). Tanto Elias, representando os profetas, como Moisés representativo da Lei, compreendiam bem a missão do Messias. Alguns usam esta passagem para defenderem a comunicação com os mortos. Está escrito que os seres humanos morrem uma vez e a única coisa que os espera é o julgamento divino (Hb 9:27). Não foram os discípulos que conversam com Moisés e Elias foi Jesus. Ele é Senhor dos vivos e dos mortos e é o único que tem autoridade para falar a vivos e mortos. Não há possibilidade de os mortos retornarem, não há reencarnação e nem almas a pairar no ar. Vozes de antepassados, barulhos estranhos ou outras coisas semelhantes são produzidas por Satanás, por demónios ou, algumas vezes, por charlatões (2Co 11:14). 

Os discípulos adormeceram na oração e acordaram sobressaltados com aquela manifestação gloriosa de Jesus. Pedro, tomado pelo assombro e medo, fala sem saber bem o que dizia: “Mestre, bom é que nós estejamos aqui e façamos três cabanas, uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias.” O pânico faz as pessoas dizerem muitas tolices. Para quê fazer cabanas para Elias, Moisés e Jesus? A ideia de Jesus era continuar rumo à cruz, não fazer acampamento ali. Ao colocar Jesus no mesmo patamar de Moisés e de Elias, Pedro não compreendeu que O Senhor estava acima da Lei mosaica e de todos os profetas.

De repente, a sombra de uma nuvem cobriu os três apóstolos e saiu uma voz dela dizendo: “Este é o meu Filho amado; a ele ouvi” (Mc 9:7). Não era a primeira vez que o Pai falava audivelmente a propósito do Filho. No barulho das muitas vozes deste mundo, continua a ser imprescindível ouvirmos Jesus Cristo. Imediatamente Elias e Moisés desapareceram e ficou ali no monte somente Jesus com os três discípulos. 

Na descida, Jesus ordena que não divulgassem o que tinham visto até que Ele ressurgisse dos mortos. Uma vez mais, eles ficam sem entender o que era aquilo de ressuscitar dos mortos. Por vezes ficamos incomodados por existirem tantas pessoas que hoje não entendem que Jesus morreu e ressuscitou, mas até os discípulos que andavam com Ele não entenderam isso durante muito tempo. 

 

Algumas conclusões e aplicações

1. Cuidado com as experiências espirituais. É possível ter experiências gloriosas com Cristo e ao mesmo tempo, como Pedro, dizer e fazer coisas que não fazem sentido. As nossas experiências com Deus nunca devem ser colocadas acima da Palavra do Senhor. 

2. Jesus é a manifestação da glória divina. Jesus não apenas reflecte o brilho da glória de Deus, Ele é a real glória divina, porque Ele é Deus. Na Carta aos Hebreus lemos que Jesus é "o resplendor da Sua glória [de Deus] e a expressa imagem da Sua Pessoa" (Hb 1:3). Podes confiar em Jesus porque Ele é mais do que um líder, mais do que um profeta religioso, na transfiguração, fica claro que Ele é Deus cheio de glória.

3. Acima de todos, ouvir Jesus. Escutar e obedecer à voz de Jesus através da Sua Palavra e do Espírito Santo continua a ser primordial. Jesus é o centro da nossa fé e salvação. Tudo na Bíblia converge para Ele, e as nossas vidas também devem girar em torno de Sua Pessoa. A Ele deves ouvir.

"O que nos deve interessar não é o que os homens dizem, ou o que os ministros do evangelho afirmam, ou o que as igrejas asseveram, ou o que os concílios eclesiásticos declaram, mas, sim, o que Cristo diz. Ouçamos, pois, Jesus. Permaneçamos nele. Dependamos dele. Olhemos para ele. Ele, e somente ele, nunca nos decepcionará, nunca nos desapontará, nunca nos desencaminhará." - Ryle 

4. A transfiguração de Jesus dá-nos esperança. Os discípulos tiveram um vislumbre do Reino glorioso vindouro e gostaram tanto que queriam ficar ali. Ficaram tão impactados, que mais tarde Pedro, já entendendo melhor o alcance do que tinha visto, testemunhou: "nós mesmos vimos a sua majestade, porquanto ele recebeu de Deus Pai honra e glória, quando da magnífica glória lhe foi dirigida a seguinte voz: Este é o meu Filho amado, em quem me tenho comprazido. E ouvimos esta voz dirigida do céu, estando nós com ele no monte santo." (2Pedro 1:16-18).

Que a presença gloriosa de Jesus continue a brilhar em nós e por nós.

quinta-feira, janeiro 16, 2025

Implicações de seguir a Cristo

Jesus está no Norte de Israel e vai em direcção a Jerusalém rumo à cruz. Marcos conta que o Mestre chama os seus discípulos e diz-lhes: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me.” Há implicações e exigências para quem segue a Cristo. O cristianismo fácil, barato, utilitário, que diz que para seguir a Cristo nada é exigido, é falso! O discipulado afecta a nossa vida pessoal, familiar e comunitária. Ao contrário de tantos falsos mestres, Jesus não engana as pessoas que o querem seguir, com ilusões ou propostas fáceis. A porta é estreita e o caminho é apertado (Mt 7:13-14).

Há pelo menos três exigências para alguém ser discípulo de Cristo:

1ª) Negar-se a si mesmo. O discípulo de Cristo deve renunciar a si próprio. Isto vai contra aquilo que é defendido por muitas seitas, filosofias e gurus que prometem felicidade para quem fizer o que lhe apetece e desejar. Jesus ensina que o cristão deve negar-se a si mesmo. Isto significa rejeitar os interesses egoístas do nosso "eu". Negar a nossa vontade e fazer a Dele. Esta vida de renúncia não é uma vida isolada ou fechada num mosteiro. É viver como Jesus viveu, deixando que a vida de Jesus seja a nossa vida.

2ª) Tomar a sua cruz. Jesus caminha para a cruz e exige que esse caminho seja também o dos seus discípulos. A cruz é o destino de Cristo e do cristão. A cruz é um lugar de morte. Quem não está pronto a morrer por Cristo não está apto para viver com Cristo aqui e no céu. Carregar a cruz não é suportar uma doença, um filho rebelde, um marido/esposa difícil, ou outra coisa custosa, é a disposição para morreres para ti próprio e para tudo o que não agrada a Deus. “Os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” (Gl 5:24).

3ª) Seguir Jesus. Ser cristão não é ser simpatizante do cristianismo, não é dizer-se religioso, católico ou evangélico e viver como um ateu. Não é apenas orar e vir à igreja ao Domingo, é ter comunhão com Ele, é depender dele, obedecer aos seus mandamentos, é testemunhar! Seguir Jesus é confiar no Senhor soberano da nossa vida em todos os aspectos.

A seguir, Jesus vai ensinar o santo paradoxo de perder para ganhar. "Qualquer que quiser salvar a sua vida perdê-la-á, mas qualquer que perder a sua vida por amor de mim e do evangelho, esse a salvará." Quem quiser salvar a sua vida, vivendo sem a graça divina e para si próprio, vai perder-se eternamente. É a loucura daquele que pensa ter tudo mas falta-lhe o mais importante de tudo: Deus. Ao ignorar Deus e a sua salvação ele está desastrosamente perdido aqui e no futuro.

Por outro lado, Jesus diz que quem perder a sua vida por amor a Jesus e por causa do evangelho vai ganhar a vida eterna. Não é ser um mártir que garante a vida eterna, é entender que o amor de Jesus é melhor do que todos os amores desta vida. Afinal de contas, de que adianta a pessoa ser muito rica, famosa e ter tudo neste mundo e estar perdida e atormentada por toda a eternidade?

O discípulo é alguém que não se envergonha de Cristo. Ser cristão nunca foi popular e nunca será. Quem é um verdadeiro discípulo de Cristo vai enfrentar oposição, lutas, perseguição e até pode ser morto por causa da sua fé. Todos aqueles que se envergonharem de Cristo e não crerem na Palavra do Senhor serão julgados pelo Senhor no futuro.


Resumindo:

O discipulado é um chamado diário para todo o cristão seguir Jesus e exige a renúncia constante. Todo este processo de negar a nossa vontade, tomar a cada dia a cruz e seguir a Cristo não pode ser feito nas nossas próprias forças. A auto-negação é sempre difícil e só é possível em cooperação e na dependência do Espírito Santo.

A salvação da nossa alma vale mais do que todas as riquezas deste mundo. Marcos vai contar mais à frente a história de um jovem rico que perguntou a Jesus o que deveria fazer para herdar a vida eterna. Jesus disse que ele precisava perder a confiança naquilo que a sua vida estava firmada - nas riquezas. Ele entendeu o custo de seguir Jesus e retirou-se triste. De uma forma egoísta e louca, ele não estava na disposição de perder os seus bens pelo Senhor dos bens e da vida (Mc 10:17-23).

Que tipo de discípulo és tu? Segues a Cristo de boca ou de verdade?

quarta-feira, dezembro 04, 2024

Quem é Jesus?


A passagem de Marcos 8:27-33 serve de transição para a segunda parte do Evangelho de Marcos. Jesus conversa com os seus discípulos no caminho de Cesareia de Filipe. O seu destino é Jerusalém, rumo à cruz. O Senhor lança uma primeira pergunta “Quem dizem os homens que eu sou?” Saber quem é Jesus é a pergunta mais importante que alguém pode fazer. Esta pergunta continua a ser crucial no nosso tempo. 
Os discípulos de Jesus responderam que alguns pensavam que Ele seria João Baptista, Elias ou outro profeta. O povo estava muito confuso. Para os religiosos judeus Jesus era um falso profeta, para os governantes era um rebelde perigoso, para o povo era mais um guia religioso. Muitos dirão hoje que Jesus foi um Rabi, um Mestre religioso, um bom homem, um líder político, um anjo, um deus, etc.  

Jesus faz-lhes uma segunda pergunta: “Mas vós quem dizeis que eu sou?” Pedro com os olhos a brilhar responde: "Tu és o Cristo!" Quando Pedro identifica Jesus como O Cristo, está reconhecer quem Jesus é e o propósito da sua vinda. A palavra “Cristo” significa “O Messias”, literalmente “o Ungido”, Aquele que foi “escolhido por Deus” para salvar e libertar o seu povo. Os judeus estavam à espera de um Messias que iria libertar Israel do jugo romano e estabelecer o reino justo de Deus na terra.
 
Na passagem paralela de Mateus (Mt 16:15-17), lemos que a declaração de Pedro não foi o resultado do seu próprio pensamento, da sua lógica ou na sequência da aprendizagem humana, esta confissão foi fruto de uma revelação dada por Deus Pai. Para alguém entender que Jesus é o Cristo, que veio a este mundo para nos salvar, é necessária revelação divina, a acção iluminadora do Espírito Santo. 
 
Depois da declaração de Pedro, Jesus disse que era necessário padecer muito, ser rejeitado pelos líderes religiosos, ser morto e que passados três dias iria ressuscitar. Então, Simão Pedro, o tal discípulo que pensava ter feito um brilharete com a sua declaração, tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo dizendo a Jesus para Ele não ir à cruz. O Messias que Pedro idealizava (e todos os religiosos judeus) nunca iria morrer daquela forma cruel e indigna que Jesus estava a profetizar. O Senhor identificou quem estava por detrás das palavras de Pedro e falando para Satanás ordenou: “Retira-te de diante de mim, Satanás; porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas as que são dos homens.”  

 
Algumas lições e conclusões desta passagem:
 
1. O Pedro iluminado pensou que podia repreender Jesus. Esta atitude revelou altivez, ignorância e falta de discernimento espiritual. Na nossa boa intenção podemos ser instrumentalizados por Satanás. As pessoas mais usadas por Deus também podem cometer falhas graves. Saber isto não deve servir de desculpa mas de alerta para todos os cristãos. 
 
2. O alvo de Satanás sempre foi impedir que o Cristo fosse à cruz. Tentou fazer isso logo no início do ministério de Jesus (Mt 4:6). Aqui, usou um dos seus discípulos mais próximos. Jesus diz que Satanás é um ser limitado, que não conhece as coisas que são de Deus mas só apenas algumas coisas relativas aos homens. Na cruz, Jesus venceu Satanás e todas as autoridades espirituais do mal (Cl 2:14-15).
 
3. Jesus é o único Messias que nos pode salvar. Jesus é o Cristo, Ele é Deus, é o Verbo que se fez carne, é o nosso Redentor que morreu e ressuscitou, é o único Mediador entre Deus e os Homens é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, Jesus é o caminho, a verdade e a vida.

“Se não souberes com clareza quem é Jesus, estarás perdido na questão mais importante da vida. O cristianismo é muito mais do que um conjunto de doutrinas, Ele é uma Pessoa. O cristianismo tem a ver com a Pessoa de Cristo. Ele é o centro, o eixo, a base, o alvo e a fonte de toda a vida cristã. Fora dele não há redenção e nem esperança. Ele é a fonte de onde procedem todas as bênçãos.” - Hernandes Dias Lopes.
 
Quem é Jesus para ti?

quarta-feira, outubro 30, 2024

Visão restaurada


A cura do cego em Betsaida é uma história um pouco estranha. É narrada apenas no Evangelho de Marcos e num certo sentido encerra a primeira parte do livro. Betsaida era uma pequena cidade na zona norte do Mar da Galileia. Os Apóstolos Pedro, André e Filipe tinham nascido nessa cidade.

Trouxeram um cego a Jesus. O Senhor tomou-o pela mão e levou-o para fora da cidade. Alguns atribuem a saída de Jesus de Betsaida à terrível incredulidade que se vivia ali. Esta cidade, juntamente com Corazim e Cafarnaum foram repreendidas pelo Senhor porque rejeitaram Cristo e não se arrependeram dos seus pecados (Lc 10:13-16). No final do milagre, Jesus diz ao cego curado para ir para casa e não voltar a Betsaida. Há lugares e circunstâncias que não ajudam a nossa fé.

Marcos conta que Jesus cuspiu nos olhos do cego. Coisa estranha. Não era a primeira vezes que Jesus tinha usado a sua saliva para operar milagres (Mc 7:31-37). A saliva naquele tempo era considerada uma coisa medicinal, mas não foi por isso que Jesus usou saliva. Na verdade não foi a saliva que curou aquele homem, foi o seu poder divino.

Jesus curou o cego, mas ele disse que via homens que andavam como árvores. A sua visão não estava suficientemente clara. Esta cura foi mais complicada para Jesus? Claro que não. Bastava uma palavra, um toque, um olhar de Jesus para curar aquele cego. Reconhecendo que não temos todas as explicações, aceitamos os diferentes métodos que Jesus operou. O Senhor é soberano e 100% livre para agir em cada pessoa da forma que Ele quer e do modo particular em cada vida.

Entretanto, Jesus colocou novamente as mãos nos olhos do homem e ele começou a ver forma nítida. Deus pode curar as pessoas instantaneamente, como fez e faz com tantas vidas, mas também pode curar de forma progressiva. Todos nascemos espiritualmente cegos e até Jesus se revelar à nossa vida continuamos cegos. Quando recebemos Jesus começamos a ver e a vontade do Senhor é que essa visão continue a aperfeiçoar-se até ao dia em que já não veremos por espelho, mas face a face (1Co 13:12). Hernandes Dias Lopes relembra que “a obra de Deus na nossa vida é progressiva. A vida do justo é como a luz da aurora que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito.” 

Depois do milagre, Jesus enviou o que era cego para casa e disse-lhe para não entrar na cidade. É provável que este cego não fosse de Betsaida, porque Jesus enviou-o para casa e para não entrar em Betsaida. Jesus faz tudo bem feito e as suas orientações são as melhores.


ALGUMAS APLICAÇÕES:

1. Devemos sair dos lugares e dos ambientes que nos impedem de vermos bem as coisas espirituais. O teste da visão espiritual é indagarmos se os lugares onde vamos e com quem estamos nos levam para mais perto do Senhor.

2. Temos a responsabilidade como cristãos de levar cegos a Jesus. Satanás cega os olhos das pessoas para que não vejam a salvação do Senhor. Somente Jesus, pela acção da Palavra e do Espírito Santo, pode remover a nossa cegueira.

3. Deixemos Deus tratar a nossa falta de visão. A visão limpa é sempre obra das mãos do Senhor. Que não pensemos que já vemos muita coisa. Leiamos e meditemos na Palavra, porque conforme diz o Salmo 119:105 “Lâmpada para os meus pés é tua palavra e luz, para o meu caminho.”

Que Deus possa acrescentar-nos mais da Sua visão!

quinta-feira, setembro 19, 2024

Coração sem fermento

A seguir à segunda multiplicação dos pães e dos peixes, Jesus e os seus discípulos entram num barco e vão para Dalmanuta. Pensa-se que esta região ficaria entre Cafarnaum e Magdala, na planície de Genesaré. Lemos no Evangelho de Marcos que apareceram os fiscais da boa religião: os fariseus. Discutem com Jesus e pedem-lhe um sinal do céu. Depois de tantos milagres que Jesus já tinha feito, este pedido é no mínimo um absurdo. Na verdade, eles não tinham o menor desejo de mais sinais, queriam desacreditar Jesus. Era uma curiosidade desonesta. 

Algumas pessoas que não aceitam Jesus, dizem que se vissem um sinal elas acreditariam. Só que isso são desculpas esfarrapadas porque a fé verdadeira não precisa de mais sinais. A fé autêntica, não sendo um salto no escuro, é a confiança apoiada na revelação da Palavra de Deus, em Jesus Cristo e na Sua obra realizada na cruz pelos nossos pecados.

Jesus dá um suspiro profundo. Este suspiro é muito mais do que cansaço, enfado ou impaciência. É um gemido que vem das entranhas mais profundas de Jesus. É um suspiro contra a incredulidade e contra a obstinada falta de confiança no Messias. Jesus diz que não fará mais sinais para eles, porque sabe que as suas motivações são malignas. O grande sinal seria dado quando Jesus ressurgisse dos mortos. Devemos seguir Jesus, não por causa dos seus milagres (e Ele faz milagres!), mas porque Ele é o único Salvador.

Entretanto, entraram novamente no barco e, no Mar da Galileia, O Senhor advertiu os seus discípulos para se afastarem do fermento dos fariseus e com o fermento de Herodes. O fermento na Bíblia simboliza a influência do mal e do pecado. Jesus tinha já dito que o fermento dos fariseus era a hipocrisia (Lc 12:1). O fermento de Herodes seria a corrupção política e moral encabeçada pelos herodianos. Estes herodianos aliaram-se aos fariseus para engendrar uma forma para matar Jesus (Mc 3:6). Que O Senhor nos ajude a não sermos hipócritas legalistas como os fariseus e nem mundanos e sem moral como os herodianos. O resultado de viver uma vida dupla é culpa, frustração, falta de paz.

Os discípulos tinham-se esquecido de levar pão para a viagem e quando Jesus falou no fermento dos fariseus e de Herodes, eles pensaram que O Senhor estava a falar desse esquecimento. Tudo errado. Muitos problemas têm acontecido pela má interpretação de uma palavra, de um gesto ou por causa da má compreensão de uma situação. Perante a insipiência dos discípulos, Jesus vai relembrar-lhes os grandes milagres que tinha feito em matéria de panificação. Pior do que esquecerem-se do pão, é terem-se esquecido do poder e da provisão do Senhor Jesus.

Jesus questiona os seus discípulos: “ainda tendes o vosso coração endurecido?” O problema dos fariseus, dos herodianos e dos discípulos era a dureza de coração. Esse também é o nosso problema. O coração duro impede-nos de ouvir uma exortação, de reconhecer erros, de crescer. Coração endurecido é ter olhos e ouvidos, mas não ver e nem ouvir as coisas espirituais. É esquecer-se dos muitos milagres que Deus já fez na nossa vida e família. 

Jesus repete duas vezes a pergunta: "Não compreendeis ainda?" (Mc 8.17; 21). Que os fariseus e os herodianos compreendessem Jesus até percebemos, mas a incompreensão dos discípulos de Jesus parece ridícula. E nós? Depois de tantas provas da presença de Deus na nossa vida, como é que é possível ainda não entendermos que O Senhor cuida de nós? Tantas coisas mesquinhas deste mundo que nos preocupam e endurecem o nosso coração. Preocupação com comida, trabalho, aparência, bens, com aquilo que temos e o com o que não temos.

Contudo, há uma palavra que Jesus repete, que indicia que há esperança para eles (e para nós): “AINDA”. Os discípulos estavam cegos à graça abundante de Deus, mas há esperança porque Deus ainda tem grandes coisas para a sua vida. Os seus corações vão ser amolecidos e os seus olhos serão abertos mais tarde. 

Que o nosso coração esteja limpo de todo o fermento do mal, da malícia, do pecado. Que o nosso coração esteja sensível à presença de Deus e à Sua Palavra. Que Deus hoje abra os teus olhos e amoleça o teu coração!

quarta-feira, agosto 28, 2024

Multiplicação da compaixão


Jesus ainda está em território estrangeiro, em Decápolis, e acontece a segunda multiplicação dos pães e dos peixes (Mc 8:1-9). Surge uma pergunta: porque é que Jesus fez este milagre duas vezes de forma tão idêntica? Alguns alegam que foi apenas um milagre, desdobrado em duas versões. Obviamente que isso está errado porque há detalhes diferentes nos dois. O próprio Senhor Jesus disse que foram dois milagres (Mc 8:17-21).  Este segundo milagre serviu para eliminar eventuais dúvidas de alguns cépticos que não acreditaram na primeira multiplicação. Em terras de gentios, Jesus demonstrou que a sua mensagem e provisão são para todas as nações. Mas talvez a principal razão porque Jesus fez este segundo milagre, que ressalta do texto sagrado, foi a profunda compaixão do Senhor pelas pessoas à sua volta.
 
Jesus fugiu das multidões quando foi para a Fenícia, mas as multidões teimavam em não fugir de Jesus. O Senhor tinha sido rejeitado pelos seus, os da sua nação, e agora os gentios seguem-no efusivamente. Jesus chama os discípulos e diz que tem compaixão daquele povo que está há três dias sem comer. Ao contrário do que alguns santarrões pensam, Jesus não cuida apenas do espírito das pessoas, Ele deseja suprir todas as necessidades. 

A compaixão é uma emoção muito forte que se traduz num sentimento de empatia, amor e misericórdia e que procura aliviar o sofrimento alheio. É mais do que “ter pena”. O termo na Bíblia está ligado à ideia de sentir as entranhas a revolverem-se. A compaixão sempre foi uma das marcas de Jesus. A compaixão verdadeira leva à acção. A compaixão aqui multiplicou o pão e os peixes. Tinha sido também a compaixão a causa primária na primeira multiplicação (Mc 6:34). 

O Senhor perguntou aos seus discípulos quantos pães eles tinham. Eles responderam que tinham apenas sete pães e alguns peixinhos. Nada podiam fazer. Na nossa força e poder nada podemos fazer, mas o pouco que temos, colocado nas mãos do Senhor, pode abençoar muitas vidas. Jesus mandou a multidão sentar-se no chão, tomou os pães e deu graças. Aconteceu o milagre. Deu graças também pelos peixinhos e multiplicou-os também. O deserto e as impossibilidades humanas não impedem que Jesus realize grandes e poderosas coisas. Ele pode! 

O relato termina dizendo que todos comeram, ficaram satisfeitos e ainda sobejou muito pão. Guardaram os pedaços em sete grandes cestos. Quando a abundância chegar à tua vida, não desperdices, partilha o muito que tens recebido das mãos do Senhor. 


Algumas lições e aplicações desta passagem:

1. Deus ama a todos e não faz diferença de pessoas. Quando os judeus estavam com fome, Jesus multiplicou os pães, quando os gentios estavam com fome, Jesus multiplicou os pães da mesma maneira. Jesus ama a todos e morreu por todos. "O Senhor compadece-se mesmo daqueles que não fazem parte do seu povo – aqueles que não têm fé, que estão sem a graça divina, os seguidores deste mundo. Jesus mostra-se terno para com eles, embora eles não o percebam. Ele morreu na cruz por eles, embora se importem pouco com o que Ele realizou na cruz do Calvário. Jesus está disposto a acolhê-los graciosamente, a perdoá-los gratuitamente, se eles se arrependerem e crerem nele", comentou J.C Ryle. 

2. Nestes nossos dias de tanta fome espiritual, a compaixão precisa ser multiplicada. Que possamos estar atentos às necessidades físicas, emocionais e espirituais. Estar dispostos a ser usados por Deus para Ele as saciar. Deus quer usar o teu pouco para fazer muito. As nossas atitudes de compaixão evidenciam o amor de Deus na nossa vida. 

3. Quando andamos com Jesus, podemos ter lutas, dificuldades, até passar dias sem comer, mas Deus sempre vai suprir as nossas necessidades. Que possamos ter a fé do Apóstolo Paulo, que acreditava no Deus que abençoa e supre: “O meu Deus, segundo as suas riquezas, suprirá todas as vossas necessidades em glória, por Cristo Jesus” (Fp 4:19). Jesus é poderoso para suprir as nossas necessidades e as dos que estão à nossa volta, por vezes de forma surpreendente que não esperávamos.

4. Este segundo milagre de Jesus é uma lembrança que Jesus pode repetir as coisas grandiosas e poderosas que fez no passado. Com Cristo há suprimento e esperança. Entrega as tuas necessidades ao Senhor e confia que Ele vai suprir, segundo a sua graça e vontade, tudo o que necessitas.

quinta-feira, julho 25, 2024

Migalhas do céu

Evangelho de Marcos narra que Jesus saiu de Israel e vai para a Fenícia. Tiro e Sidom eram cidades localizadas junto ao Mar Mediterrâneo e aquela região pertencia à Síria. Provavelmente Jesus foi ao estrangeiro para descansar. Estava cansado das multidões e dos constantes ataques dos religiosos judeus. Se o servo de Deus não descansar depressa irá sucumbir.

Entretanto, já na Fenícia, uma mulher perseguia Jesus aos gritos, rogando-lhe que curasse a sua filha endemoninhada. Incomodados com a gritaria, os discípulos de Jesus pediam-lhe que a mandasse embora. Porém, ela não desistia. Entrou na casa onde Jesus estava e lançou-se aos seus pés. Esta mulher sendo siro-fenícia de nascimento e com a cultura, a religião e a língua grega, estava ali a adorar O Senhor. 

Perante a insistência daquela mãe, Jesus responde algo estranho, que até parece insultuoso: “Deixa primeiro saciar os filhos, porque não convém tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos.”  Os cães eram pouco considerados neste tempo. Os judeus consideram-nos animais imundos. Chamar alguém de cão era um grande insulto. É óbvio que a resposta de Jesus é figurada. O Senhor não está a tratar aquela mulher como uma cadela. O Senhor está a dizer-lhe que as Boas Novas do Evangelho eram em primeiro lugar para as “ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15:24). 

A mulher não ficou ofendida com as palavras de Jesus. Em vez de se calar ou ir embora, esta mãe respondeu de uma forma arrojada: “Sim, Senhor; mas também os cachorrinhos comem, debaixo da mesa, as migalhas dos filhos.” Que diferença de atitude desta mulher comparada com os fariseus. Ela não atacou e nem defendeu os seus próprios direitos e razões. Reconheceu quem ela era e quem Jesus era. Esta mulher já tinha reconhecido que Jesus era “Senhor, Filho de Davi.” Esta declaração revelava que ela acreditava que Ele era O Messias, o Salvador prometido. 

Perante a resposta humilde e ousada daquela mulher, Jesus replicou: “Por essa palavra, vai; o demónio já saiu de tua filha.” A mulher dispôs-se a comer as migalhas que caem da mesa porque “migalhas também são pão”. Migalhas do Filho que são o nosso alimento. Migalhas poderosas que caem do céu e saciam a nossa alma. Mas os milagres do céu são para quem está disposto a se humilhar no chão perante O Senhor que tudo pode.

R. C. Sproul realçou que “o verdadeiro crente saboreia cada migalha que vem da mão de Deus. A boa notícia é que, no derramamento da misericórdia e da graça que nos vem das mãos de Deus, embora devêssemos estar satisfeitos com migalhas, Ele não se satisfaz em dar-nos migalhas. Ele prepara uma mesa diante de nós.” 

A filha daquela mulher siro-fenícia ficou curada. Quando a mãe chegou a sua casa, a sua filha estava tranquilamente deitada na cama, totalmente liberta dos demónios. Os demónios não resistem ao poder de Jesus, mesmo à distância. Basta uma palavra de Jesus e tudo muda. Quem tem Jesus na sua vida não teme os poderes das trevas. 


Algumas conclusões e aplicações

1. Esta mulher é um incentivo à intercessão. Nunca desistas de orar e clamar pelos teus filhos e pela tua família. Ora pelo grande milagre da salvação. Oremos pelos milagres do Senhor. Que os demónios que atormentam tantas vidas hoje, sejam expulsos pelo poder de Jesus Cristo. 

2. Esta mulher adorou Cristo aos seus pés. Jesus elogiou a fé persistente daquela mulher. Precisamos orar e adorar O Senhor todos os dias. Esta mulher lutadora e persistente, ensina-nos a acreditar e a confiar de forma perseverante no poderoso Salvador Jesus.

3. Jesus honrou aquela mulher gentia. Deus quer salvar todo o tipo de pessoas. Num tempo em que estão a chegar a Portugal tantos imigrantes, Jesus ensina-nos a receber e a acolher a todos. A igreja é inclusiva porque Deus ama todos os povos e etnias.

4. Por último, alimentemos a nossa alma, com as migalhas que caem do céu, através da Palavra do Senhor, a Bíblia. Que ninguém se julgue completamente saciado por já saber algumas coisas das Escrituras Sagradas. Que tenhamos a fome espiritual do profeta Jeremias:

“Achando-se as tuas palavras, logo as comi, e a tua palavra foi para mim o gozo e alegria do meu coração; porque pelo teu nome me chamo, ó SENHOR, Deus dos Exércitos.”
- Jr 15:16.

 

terça-feira, julho 09, 2024

Contaminação do coração

Marcos conta que os religiosos judeus ficaram muito incomodados ao constarem que os discípulos de Jesus comiam pão sem lavar as mãos. Essa lavagem não está relacionada com questões de higiene, mas com as leis cerimoniais de purificação religiosa. A lei mosaica determinava que os sacerdotes deviam lavar as mãos e os pés no serviço do Tabernáculo (Ex 30:17-21). Mas a tradição dos anciãos inventou um conjunto de regras adicionais que impunham a lavagem das mãos, pés, copos, jarros, vasos e até as próprias camas. Quem não cumprisse com essas regras, era considerado impuro e espiritualmente contaminado.

Indignados, estes religiosos perguntaram a Jesus a razão do procedimento dos discípulos. Citando Isaías, Jesus chama-os de hipócritas por estavam a valorizar leis exteriores mas o seu coração estava longe de Deus. O termo “hipócrita” referia-se a um actor que usava uma máscara para parecer ser o que realmente não era. Quantas vezes nós também somos assim. Queremos mostrar aos outros aquilo que na verdade não somos. Que Deus perdoe a minha hipocrisia. J.C. Ryle alerta: “Proferir palavras bonitas não devem satisfazer-nos se o nosso coração e os nossos lábios não estiverem em harmonia.”

Jesus disse-lhes que estas regras eram “mandamentos de homens”, não de Deus. Era um dos fardos que os religiosos inventaram para carregar e oprimir o povo (Mt 23:2-4). Em vez de ensinarem e praticarem os mandamentos de Deus, desprezavam-nos e criaram preceitos de tradição humana. A autoridade espiritual baseada na tradição humana oprime e desvia as pessoas da verdadeira autoridade das Escrituras Sagradas.

O Senhor Jesus dá-lhes um exemplo do seu erro, a "corbã". Este termo significa “oferta ao Senhor”. Era uma espécie de doação prometida para a tesouraria do templo. Alguns filhos não estavam a cuidar dos seus pais, conforme o quarto mandamento dizia, porque tinham prometido a "corbã" ao Senhor. Além disso, os escribas e fariseus, sabendo da "corbã", não permitiam que o filho renegasse o seu voto, mesmo que os pais estivessem na miséria. Jesus denunciou esta hipocrisia mascarada de feito espiritual. Eles estavam a substituir a lei de Deus pelas leis humanas. Mais tarde, Paulo escreve: “Se alguém não tem cuidado dos seus e principalmente dos da sua família, negou a fé e é pior do que o infiel.” (1Tm 5:8).

A seguir, Jesus vai explicar que a contaminação espiritual não era um problema exterior de lavagem de mãos, mas um problema de coração. A contaminação espiritual não está fora, está dentro. O mal não vem de fora, o mal está no nosso coração contaminado. Muitos filósofos e pensadores defendem que o homem nasce bom e que são as condições à sua volta que o estragam. É mentira. Nascemos com o coração apodrecido pelo pecado. Os judeus centravam a sua espiritualidade naquilo que comiam, naquilo que faziam ou não faziam. Jesus vem esclarecer que a fonte de toda a contaminação espiritual é interior e vem do nosso coração.

Jesus nomeia alguns pecados que brotam do coração humano nos v. 21-22. Começa tudo com os maus pensamentos. Todo o acto pecaminoso externo começa por um acto interno de decisão. A má acção exterior tem origem num mau pensamento interior. O remédio não é o aperfeiçoamento do velho coração, é um novo coração (Ez 36:26-27). Precisamos da ajuda de Deus para recebermos um novo coração e para vivermos em santidade e pureza espiritual. Isso não acontece por lavar ou não lavar as mãos, por aquilo que se come ou não se come, ou por aquilo que se toca ou não se toca, porque a contaminação é inerente à existência. Conforme alegou Ryle, “cada homem traz, dentro de si o manancial da sua própria iniquidade”

É mais fácil lavar as mãos do que ter um coração limpo. As religiões procuram limpar as mãos, Deus quer limpar e purificar o nosso coração. Cuidemos com a ajuda do Senhor do nosso coração, alimentando os nossos pensamentos com a Palavra de Deus e obedecendo aos seus ensinamentos.

“Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova em mim um espírito recto” (Sl 51:10). 

 

sexta-feira, maio 31, 2024

Marcas da graça


O último capítulo da Carta de Paulo aos Gálatas pode ser dividido em três partes. A primeira parte fala de um cristão que é “surpreendido pelo pecado”. A ideia do texto é essa. O pecado é algo que apanha o crente. É um percalço. O cristão que anda dependente do Espírito consegue resistir ao pecado, mas isso não significa que nunca mais peque (1João 1:8,10). Quando um cristão cai, um dos deveres da igreja, particularmente dos líderes, é ajudar essa pessoa a levantar-se. Nesse processo, os líderes não devem ter um sentimento de superioridade, mas de amor, mansidão e humildade. Têm a consciência que também podem cair. Para acontecer a restauração, a pessoa que falhou tem que admitir o pecado, estar arrependida e reconhecer autoridade de quem a está a encaminhar. 

Em Gálatas 6:2 lemos que devemos levar as cargas uns dos outros, mas no v.5 vemos que cada um deve levar a sua própria carga. Haverá contradição? Claro que não. A palavra original para cargas no v.2 é baros e a do v.5 é fortion. A palavra baros significa "um peso pesado", difícil de transportar sozinho, enquanto fortion refere-se a coisas que cada um pode levar por si. A partilha de cargas pesadas deve ser uma constante na vida da Igreja. Por outro lado, cada cristão é responsável pela sua própria conduta e por cumprir com as suas obrigações pessoais. 

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Na segunda parte, Paulo vai falar de questões práticas e usa a Lei da Semeadura: “Tudo o que o homem semear, isso também ceifará.” (Gl 6:7). Muitos abusos têm sido feitos pela má leitura do verso 6 que fala em repartir os bens com quem que o instruiu. É mais do que dar dinheiro, é partilhar benefícios materiais e espirituais. Se é um erro grave exigir dinheiro aos irmãos que nos ensinam a Palavra de Deus, mas também está errado não abençoar aqueles que nos ministram a Palavra.

A Lei da semeadura relaciona-se com Deus. Ninguém zomba de Deus! Se alguém pensa que Deus está indiferente a quem vive no pecado ou ao que demonstra ingratidão, está muito enganado. Semear na carne é viver para a satisfação dos desejos e prazeres humanos. É investir no que se vê, sem pensar na eternidade. O resultado disso é podridão espiritual e morte eterna. Por outro lado, semear no Espírito é investir no Reino de Deus. É depender de Deus, dando ouvidos à Sua Palavra e colocando-a em prática. A colheita dessa caminhada é a vida eterna, não que essa vida seja uma conquista do cristão obediente, mas é o resultado final de quem tem e anda no Espírito. Esta segunda secção termina com um incentivo para não desistirmos de fazer o bem a todos e muito especialmente aos da família da fé (v.9-10). Fazemos o bem não para ganhar a salvação, mas porque já estamos justificados pela graça e bondade de Deus.

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Na terceira parte, é o próprio Apóstolo que escreve e com “grandes letras” (v.11). Era normal ditar a carta a um escriba, mas nesta parte final, Paulo decide escrever com a sua própria mão. O destaque das letras seria para vincar da conclusão final e também para evitar cópias falsificadas de falsos obreiros que se faziam passar pelos Apóstolos. Os judaizantes estavam a obrigar os novos convertidos que não eram judeus a se circuncidarem. Gloriavam-se disso como se esse ritual os fizesse melhores. O Pr. Manuel Alexandre Júnior escreveu que “O cristianismo não é uma religião de cerimónias externas, mas sim algo interior e espiritual, do coração." Paulo só tinha uma coisa que se gloriava, era a cruz de Cristo. Na cruz foram desfeitos todos os rituais e preceitos religiosos. Para Deus não importa se a pessoa é religiosa ou se não tem religião. O que conta é se é uma nova criatura (2Co 5:17 5). A cruz de Cristo era o centro da mensagem e da vida de Paulo. Sigamos o seu exemplo.

Antes da bênção final, Paulo dá um testemunho pessoal: “ninguém me inquiete; porque trago no meu corpo as marcas do Senhor Jesus” (v.17). Pode surpreender alguns, mas Paulo tinha muitas tatuagens. Não eram desenhos coloridos feitos por um tatuador, mas cicatrizes feitas pelas varas, chicotes e pedras de judeus e romanos que lhe rasgaram e marcaram o corpo. Eram marcas da graça. Marcas físicas e emocionais dos muitos sofrimentos que passou por causa da fé em Cristo.

O apóstolo conclui como começou: com a graça de Deus. A temática da graça permeia toda esta Carta (1:3,6,15; 2:9; 2:21; 5:4; 6:18). A nossa vida está relacionada desde o princípio até ao fim com a maravilhosa graça divina. Nascemos, somos salvos, santificados e seremos glorificados, por causa da graça divina. Hoje é o dia de deixar de confiar na religião e aceitar a maravilhosa graça de Deus manifesta em Cristo. Somente o Evangelho de Jesus Cristo liberta! São boas novas! As melhores.


quarta-feira, maio 08, 2024

Duas formas de vida


Capítulo 5 da Carta de Paulo aos Gálatas não é uma lista de pecados de pessoas “más” em contraponto com uma lista das virtudes de pessoas “boas”. São dois sistemas diferentes de vida. Duas formas de vida. É a escolha entre o caminho da carne e o caminho do Espírito. Viver e andar pelo Espírito Santo é a proposta divina. O que é isso de andar em Espírito? Será sair do corpo? Andar nas nuvens?  

Há uma luta dentro de cada cristão, o conflito da carne contra o Espírito. É a batalha para fazermos mal quando queremos fazer bem, que está bem expressa no testemunho de Paulo aos Romanos (Rm 7:18-24). Só quando deixamos que O Espírito nos encha e guie é que vamos ter vitória. Torna-se, por isso, imperioso dar lugar ao Espírito e não às obras da carne. As obras da carne podem dividir-se em 4 grupos. 

- O 1º Grupo são pecados sexuais. “Ora, as obras da carne são manifestas e são: prostituição, impureza, lascívia” (v.19). “Prostituição” é a tradução do termo grego “porneia”, que inclui todos os tipos de pecados sexuais, seja adultério, fornicação, masturbação, incesto, homossexualidade, entre outros. A carne apodrecida pelo pecado manifesta a natureza que lhe é própria. O impulso sexual é algo muito forte no ser humano e não é pecado, mas os desvios e abusos nesta área tem enfraquecido e destruído muitas pessoas, famílias e até igrejas. 

- O 2ª grupo são os pecados religiosos: “idolatria, feitiçarias” (v.20). Estes dois pecados sintetizam a perversão do culto a Deus. A idolatria desvia a pessoa do verdadeiro Deus. João Calvino disse que o “coração humano é uma fábrica de ídolos”. A idolatria não está só ligada à religião ou às estátuas. Ídolo é tudo aquilo que recebe a adoração e a glória que pertencem somente a Deus. Deus diz: “Eu sou o Senhor; este é o meu nome; a minha glória, pois, a outrem não darei, nem o meu louvor, às imagens de escultura.” - Is 42:8. Feitiçarias (pharmakeia, literalmente “uso de drogas”) é quando a pessoa recorre ao sobrenatural maligno para alcançar os seus fins. Bruxarias, poções, cultos desviantes e muitas outras coisas que resultam em engano, opressão e decepção.

- O 3º grupo são os pecados relacionais: “Inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios” (v.20;21a). São alguns exemplos de pecados ligados aos relacionamentos humanos. As atitudes conflituosas, invejosas, os acessos de ira, as discórdias, divisões, os assassinatos são o resultado da carne envenenada pelo pecado. Notar o crescendo dos pecados que culminam em mortes. Muitos assassinatos se têm dado por causa do ciúme, das invejas e das raivas humanas. O ser humano que não tem comunhão com Deus tem graves problemas relacionais.

- O 4º grupo são os pecados pessoais: “bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas” (v.21b). São algumas coisas que até podem ser desejos naturais, mas que sem o necessário domínio próprio, podem tornar-se problemas graves. Podíamos incluir nas “coisas semelhantes a estas”: os vícios, a droga, o jogo, os prazeres carnais. Subentende-se que “não entrarão no Reino de Deus” todos os que fizerem estas coisas de forma habitual, reiterada e constante. Paulo não está a falar aqui da prática de um pecado isolado, mas da prática continuada destes pecados e de pessoas que não se arrependem disso.


O fruto do Espírito em oposição às obras da carne, Paulo descreve as atitudes que O Espírito Santo produz – Gl 5:22. Donald Guthrie diz que “a mudança das “obras” para “fruto” é importante porque remove a ênfase do esforço humano.” As obras da carne são resultado do nosso trabalho; o fruto do Espírito é obra do Espírito Santo em nós. O fruto é o resultado natural da vida. Uma árvore viva e saudável produz naturalmente bom fruto. Este fruto é um dom de Deus e manifesta-se na medida em que damos lugar ao Espírito Santo. O fruto do Espírito é singular, ao contrário das obras plurais da carne. É como uma laranja com 9 gomos. Para facilitar a exposição vamos dividir em 3 grupos de virtudes produzidas em nós pelo Espírito. 

+ O primeiro são as virtudes primordiais: “amor, alegria, paz”. Primordiais porque surgem no início e porque são essenciais na manifestação do Espírito. O termo para amor no grego é “agapé”, que se refere ao amor de Deus. É o amor eterno, constante, incondicional, generoso, sacrificial. “Deus prova o seu amor para connosco em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores.” Rm 5:8. Ao contrário das paixões da carne que passam depressa, o amor do fruto do Espírito é eterno. A alegria do Espírito não é uma alegria que vem dos prazeres mas é um gozo que dá sentido e força para viver. A paz de Deus que excede todo entendimento (Fp 4:7) enche o coração de quem está cheio do Espírito, independentemente das circunstâncias. Se não há amor, alegria e paz na nossa vida, significa que estamos longe da comunhão do E.S. 

+ O segundo grupo são as virtudes relacionais: “longanimidade, benignidade, bondade”. Outras versões traduzem como “paciência, amabilidade, delicadeza”. Quando deixamos que O Espírito comande a nossa vida vamos ter mais paciência com os que nos irritam. Iremos ter uma atitude gentil e bondosa para com o nosso próximo. 

+ Por último, as virtudes pessoais: “fé, mansidão, temperança.” A palavra fé, também pode ser traduzida por “fidelidade” ou “lealdade”. O cristão cheio do Espírito Santo e controlado por Ele vai ter mais mansidão e domínio próprio. É fácil constatar que vivemos num mundo cheio de pessoas sem fé, altamente descontroladas e descompensadas. Falta-lhes O Espírito Santo. 

Paulo termina este capítulo 5 dizendo que o cristão deve considerar a sua velha natureza pecaminosa crucificada e morta com Cristo – Gl 5:24. A nossa responsabilidade não é matar a carne, mas crer que ela já foi crucificada em Cristo (Gl 2:20). Há uma grande diferença entre viver no Espírito e andar no Espírito. Todos os cristãos vivem no Espírito quando recebem Jesus, mas nem todos andam no Espírito, ou seja, nem todos se deixam guiar e controlar pelo Espírito Santo. 

O v.26 Paulo relembra que os salvos devem viver de forma coerente e correcta com os seus irmãos.  “Não sejamos egoístas, nem nos irritemos uns aos outros, nem tenhamos inveja uns dos outros.” Para isso precisamos do Espírito Santo. Se alguém pensa que consegue viver a vida cristã sozinho está-se a enganar a ele próprio. Precisamos orar e deixar que Ele nos guie e oriente a nossa vida. "O fruto do Espírito é a manifestação exterior da salvação. O mesmo Espírito que nos convence do pecado e regenera é o mesmo que nos torna frutíferos na nossa caminhada cristã" escreve o Pr. Manuel Alexandre Júnior. 

Somente somos justificados pela fé em Cristo e somente pelo Espírito somos santificados. Assim como não é possível salvarmo-nos pelas boas obras também não é possível viver a vida cristã pelos nossos esforços sem o Espírito Santo. Que a dependência do Espírito Santo seja a tua forma de vida, porque a vida segundo a carne leva à morte eterna. “Se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo espírito mortificardes as obras do corpo, vivereis.” - Rm 8:13. Que Deus nos ajude a viver na dependência do Espírito, para o seu fruto seja uma realidade em nós.