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quarta-feira, janeiro 17, 2018

O orgulho engana e mata

"A soberba do teu coração te enganou" (Obadias 1:3).

Aprende-se muito com as histórias do Antigo Testamento. A história do povo de Israel tem muito para ensinar à Igreja. Isto não significa que tudo o que está escrito no Antigo Testamento tem que ter uma aplicabilidade directa para os cristãos hoje, são os princípios espirituais que se mantêm actuais e pertinentes para os nossos dias. Obadias é o livro mais pequeno do Antigo Testamento. Em poucos versículos é descrita a conflitualidade que persistia nos descendentes dos dois filhos de Isaque: Jacó e Esaú. As constantes querelas e inimizades entre irmãos são terríveis. Tantas zangas, divisões e guerras têm acontecido por causa do ódio entre irmãos.

Embora os edomitas fossem descendentes de Esaú, sempre se opuseram a Deus e ao povo de Israel. À data desta profecia (provavelmente por volta do ano 587 A.C.), a sua capital estava localizada em Petra, na actual Jordânia. Era uma cidade bem guardada, edificada em altos rochedos e de difícil acesso. Como estava na confluência de importantes rotas comerciais, os edomitas enriqueceram, fortaleceram-se e fecharam-se sobre si próprios. Por ser um povo forte, próspero, que se julgava invencível, cresceu no coração dos edomitas uma profunda soberba e arrogância. Além disso, Obadias expõe a violência e o desprezo que os edomitas tiveram com os seus irmãos da tribo de Judá, quando eles precisaram de ajuda (v. 10-14). Voltar as costas aos nossos irmãos quando eles estão a passar dificuldades e quando pedem a nossa ajuda é a mais abominável das soberbas.

Um dos propósitos desta profecia é mostrar que Deus castiga aqueles que desprezam e afligem o seu povo. Quem maltrata os filhos de Deus está a meter-se com o próprio Deus. A profecia do Servo do Senhor acerca do juízo divino contra os edomitas cumpriu-se na sua totalidade. Os edomitas foram conquistados e expulsos das altas montanhas e totalmente exterminados cerca de quatrocentos anos mais tarde, na época dos macabeus. Aquilo que Deus determina cumpre-se sempre. Assim como Deus destruiu este povo arrogante, o Senhor irá punir todas as pessoas orgulhosas e maldosas. A indiferença e a soberba que se entranhe no coração de um indivíduo, não só o engana, mas arruína toda a sua vida. A amargura crava raízes no coração e contamina todo o ser.

Mas também há esperança nas palavras de Obadias. Ao contrário dos edomitas, Deus não abandona o seu povo – seria feita justiça a Judá. Deus nunca desampara o seu povo. Lembremo-nos que o Dia do Senhor está perto (v. 15). Jesus vai voltar e julgar as pessoas orgulhosas e as nações que desprezam o povo de Deus. Rejeitemos toda a auto-suficiência e soberba que se queiram alojar no nosso coração. Ajudemos os nossos irmãos, especialmente quando estiverem em apuros. É melhor confiar e depender de Deus do que do nosso coração. O reino não é nosso, “o reino será do Senhor" (Ob 1:21 e Ap 11:15). O livro menor do Antigo Testamento tem coisas maiores para a nossa vida.

Jorge Oliveira
(Crónica publicada na edição nº 168 - Janeiro-Março 2017, na Revista Refrigério)

quinta-feira, outubro 19, 2017

Somente a Escritura

Este ano assinalam-se os 500 anos da Reforma Protestante. Uma das grandes luzes reacendida na Reforma foi o retorno à luminosa verdade das Escrituras sagradas. A Sola Scriptura foi uma das grandes bandeiras dos reformistas do XVI e deve continuar a ser a bandeira dos cristãos do século XXI. A Bíblia é a Palavra de Deus. A Bíblia é a revelação final e completa de Deus, é a verdade divina que nos conduz à salvação graciosa por Jesus Cristo. A autoridade das Escrituras suplanta opiniões de papas, apóstolos, padres, pastores e é superior a todas as tradições e ensinamentos humanos. A tradução da Bíblia das línguas originais para as línguas vernáculas e contemporâneas, foi um dos grandes legados da Reforma Protestante.

Por outro lado, o facto de se começar a ler a Bíblia de forma individual e livre originou também alguns equívocos e heresias ao longo dos séculos. O padre António Vieira, comentando a tentação de Jesus, escreveu que “as Palavras de Deus tomadas em sentido alheio são armas do Diabo.” É fundamental interpretar bem as palavras da Palavra. "O texto fora do contexto serve sempre de pretexto." Um dos livros que li nestas férias foi a extraordinária colecção de reflexões teológicas de Luiz Sayão, Agora Sim! Teologia do começo ao fim. A propósito da má compreensão que há na leitura da Palavra de Deus, Sayão escreve: “É preciso estudar a Bíblia no seu próprio contexto, entendendo os elementos históricos, literários e teológicos para que conheçamos ao máximo a intenção original do texto. Depois disso, temos a tarefa de destacar os princípios que estão presentes no texto, para então comparar o que descobrimos com uma análise teológica mais profunda, a partir de outros textos importantes que falam do princípio descoberto no texto inicialmente analisado. Finalmente, devemos fazer a aplicação do princípio descoberto e teologicamente analisado na realidade do quotidiano.” A boa interpretação da Bíblia tem presente o pano histórico, o contexto dos versículos, do livro e a intenção original do texto. Só assim se consegue extrair bem os princípios e as verdades espirituais que devemos aplicar nos nossos dias.

É fundamental por isso contextualizar a leitura e a interpretação da Palavra, mas, por outro lado a leitura Bíblica não é uma coisa meramente técnica ou normativa. A aproximação descontextualizada da Bíblia é loucura, mas maior loucura é aproximarmo-nos da Bíblia como se apenas letra se tratasse. A ignorância desvia, a letra mata. A Bíblia é muito mais que um livro, a Palavra de Deus é alimento e vida espiritual.

Perante a magnificente herança que os reformistas recolocaram nas nossas mãos, fico assustado ao constatar o descompromisso com a Palavra de Deus de alguns pregadores actuais. Em vez de deixarem a Palavra falar, enchem os seus sermões com as suas próprias palavras, opiniões e temáticas. O escritor Hernandes Dias Lopes, na biografia que escreveu acerca do Apóstolo Paulo, realça o grande compromisso do Apóstolo com a Palavra de Deus (Actos 20:20-27). Hernandes Lopes conclui que “O líder espiritual precisa ensinar só a Bíblia e toda a Bíblia. Ele não pode aproximar-se das Escrituras com selectividade. Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino e a correcção. A única maneira de o líder espiritual cumprir esse desiderato é pregar a Palavra expositivamente. Não pregar suas próprias ideias, mas a Palavra. Não entregar a sua mensagem, mas a de Deus. A mensagem deve emanar das Escrituras.”

Nestes dias tão confusos e desnorteados é fácil perder o Norte do rumo espiritual. Precisamos de um farol espiritual que seja seguro e confiável. A Bíblia é essa Luz. A Palavra de Deus ilumina, orienta, salva e liberta. “Lâmpada para os meus pés é tua palavra e luz, para o meu caminho.” (Salmo 119:105). As Escrituras Sagradas revelam o sentido da vida e dão-nos o sentido para a vida. A Palavra de Deus é viva e eficaz. Meditemos, preguemos e vivamos a Palavra de Deus. “A exposição das tuas palavras dá luz e dá entendimento aos símplices.” (Salmo 119:130).

Jorge Oliveira
(Crónica publicada na edição nº 167 - Outubro-Dezembro 2017, na Revista Refrigério)

quinta-feira, julho 13, 2017

O choro dos velhos bebés

São quase dez horas da noite. O bebé do meu vizinho está a chorar a plenos pulmões há mais de meia hora. Terá fome? Estará com frio? Fralda suja? Talvez esteja doente. Porquê é que o choro dos bebés nos incomoda tanto? Pode estar a pedir colinho. O mais provável é estar com muito sono. Continua a gritar. Ninguém gosta de ouvir um bebé a chorar.

Recentemente tive a graça de orientar uma apresentação de um encantador bebé ao Senhor, na nossa congregação. A maior parte dos evangélicos não baptiza os seus bebés porque considera o baptismo uma coisa séria demais para meninos. O baptismo é para gente grande que conhece e reconhece o seu pecado. O baptismo nas águas é para aqueles que sabem porque é que Jesus morreu, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia. No decorrer da apresentação ao Senhor, o bebé choramingou um pouco. É normal. Por muito que custe aos pais, uma das maneiras que os bebés se fazem notar neste mundo é com o choro. Choram quando têm fome, sono, medo, quando estão doentes. Era bom que muitos destes bebés chorassem todos os Domingos nas igrejas locais! Enquanto decorria a apresentação, foi interessante perceber que o bebé parava de chorar quando ouvia a música e quando começávamos a cantar louvores a Deus – todos os meninos gostam dos louvores a Deus. Para grande júbilo dos pais, avós e padrinhos, ouviu-se muita música naquela apresentação.

A Bíblia diz que também existem bebés espirituais nas igrejas (1 Coríntios 3:1; Hebreus 5:12, 13; 1 Pedro 2:2). Existem os crentes novos que são bebés na fé e há os bebés velhos que estão doentes na fé. Crentes novinhos, que estão ávidos da boa Palavra de Deus e crentes velhos, que desprezam e vomitam a boa comida. O escritor aos Hebreus fala deste tipo de bebés chorões (Hebreus 5:12-14). Estes velhos bebés chorões são pessoas imaturas que cresceram mal ou não cresceram como deviam, face ao tempo que se dizem crentes. Pensam, falam e portam-se como meninos. Choram, amuam, fazem birras, desistem de crescer, querem atenção. Normalmente, estes bebezões reclamam muito e estão sempre descontentes com tudo. Queixam-se da sua igreja local, dos crentes, dos líderes, da música, das pregações, protestam contra tudo e todos. São velhos protestantes, não os descendentes da boa Reforma, mas velhos imberbes com barba que nunca cresceram. No jardim da vida real, esta infantilidade é tal qual erva daninha que sufoca o sol e a frescura da vida.

A única maneira de um bebé começar a crescer é começar a alimentar-se bem. O melhor alimento espiritual é a Palavra de Deus. Só quando o crente medita e pratica os “primeiros rudimentos das palavras de Deus” que começa a ficar gente grande na fé. Se um crente despreza o “a-e-i-o-u” dos fundamentos da fé, não admira que seja e se porte como um bebé espiritual. Um bom sinal de maturidade espiritual é amar a Palavra de Deus, a sã doutrina. Um outro indício de bom crescimento é, ao invés de estar sempre pronto a apontar as falhas dos outros, reconhecer com as suas próprias falhas e pecados. É saber valorizar o que é eterno e desvalorizar o que é efémero. É amar e perdoar. É cair, levantar-se e continuar a caminhar.

O bebé do meu vizinho calou-se. Deve ter adormecido. O choro também cansa. O adulto que é adulto crescido, tem paciência para confiar e esperar na graça abundante do Pai celestial. Sabe que nada pode realizar sem Ele e sem a Sua Palavra. O Pai, afinal de contas, tem soberanamente todos os pequenos e graúdos nas Suas poderosas mãos. O nosso desafio pessoal é crescer todos os dias um pouco mais. Não ficar estagnados, antes “crescer na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo e a dar-lhe glória, assim agora como no dia da eternidade. Amém!” (2 Pedro 3:18).


Jorge Oliveira
(Crónica publicada na edição nº 166 - Julho-Setembro 2017, na Revista Refrigério)

segunda-feira, janeiro 30, 2017

A Verdade suplanta a Pós-verdade

A Porto Editora tem promovido nos últimos anos a eleição de uma palavra que procura enaltecer a riqueza lexical da língua portuguesa. No ano de 2016, a palavra escolhida foi “Geringonça”. Este vocábulo foi usado para designar a coligação parlamentar que apoia o actual governo de esquerda. “Geringonça” simboliza uma coisa malfeita e com pouca solidez. Ao contrário do que muitos imaginaram, a Geringonça esquerdina lá se tem aguentado.

No final do ano passado, os editores que publicam os famosos dicionários britânicos "Oxford" também escolheram a sua palavra do ano. A escolha recaiu na curiosa expressão “post-truth”, que pode ser traduzida para português como “pós-verdade”. Esta expressão surge no contexto da saída britânica da União Europeia (o “Brexit”) e na sequência da surpreendente eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos. Segundo os dicionários Oxford, pós-verdade é um adjectivo que faz referência a circunstâncias em que os factos objectivos têm menos influência na formação de opinião pública do que os apelos emocionais e as opiniões pessoais. Ou seja, as opiniões e emoções vencem a verdade factual. Parece que o mais importante no pensamento actual é aquilo que cada pessoa opina, defende e escolhe acreditar. A pessoa é toda a verdade que existe. Na cosmovisão pós-moderna (que de moderna não tem nada), cada um tem o seu ponto de vista e isso é a verdade que importa.

Obviamente que a pós-verdade remexe com as entranhas de qualquer protestante esclarecido. O cristão acredita que há uma só verdade, a qual é Jesus Cristo. Os cristãos podem enganar-se, Cristo não. As verdades humanas são relativas e tendenciosas, Jesus Cristo é a única verdade completa, perfeita e absoluta. Partir do pressuposto que a nossa limitada opinião é toda a verdade que existe é fazer da própria verdade um embuste.

A era da “pós-verdade” não é nova. A Bíblia identifica claramente o inventor da pós-verdade: o diabo. Não há verdade nele e a mentira é aquilo que verdadeiramente o caracteriza. Ele sabe que o inferno está cheio de opiniões e emoções. Talvez o grande catedrático da pós-verdade tenha sido Pôncio Pilatos quando perguntou à própria Verdade encarnada o que era a verdade (João 18:38). Pilatos mandou matar a Verdade. Mas crucificar a Verdade não a cala. A Verdade suplantou a mais tenebrosa das tumbas.


Gosto de um belo texto do russo Fiodor Dostoievski em “Diário de um Escritor”:
Nós já esquecemos completamente o axioma de que que a verdade é a coisa mais poética no mundo, especialmente no seu estado puro. Mais do que isso: é ainda mais fantástica que aquilo que a mente humana é capaz de fabricar ou conceber. De facto, os homens conseguiram finalmente ser bem-sucedidos em converter tudo o que a mente humana é capaz de mentir e acreditar em algo mais compreensível que a verdade, e é isso que prevalece por todo o mundo. Durante séculos a verdade irá continuar à frente do nariz das pessoas mas estas não a tomarão: irão persegui-la através da fabricação, precisamente porque procuram algo fantástico e utópico.

A “pós-verdade” é trágica. Tudo o que seja antes e depois da verdade é mentira. A verdade é muitas vezes diferente do que nos contam, do que se lê e vê nas televisões, jornais e redes sociais. A realidade virtual é isso mesmo: apenas virtual. A pior ilusão que a revolução tecnológica nos trouxe foi levar-nos a pensar que aquilo que lemos e ouvimos dos nossos “amigos”, “seguidores”, grupos e guetos é toda a verdade que existe. Não é.

A resposta que Jesus deu ao céptico Tomé, permanece verdadeiramente imprescindível para o Homem pós-verdade: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim" - João 14:6. A Verdade é O caminho que se faz Vida. Andemos nEle.


Jorge Oliveira
(Crónica publicada na edição nº 164 - Janeiro-Março 2017, na Revista Refrigério)

segunda-feira, julho 18, 2016

Tratamento para a ansiedade



Estudos recentes dizem que Portugal é o segundo país da Europa com maior taxa de depressão. 400 mil portugueses sofrem de depressão e um terço não recebe qualquer tipo de ajuda ou tratamento. A depressão é provavelmente a grande doença deste tempo. As pessoas temem muito pelo dia de amanhã. A incerteza, o medo, o terrorismo, a violência crescente, o desemprego, a solidão, os desafectos e tantas outros factores geram instabilidade psicológica, emocional e espiritual.

Os crentes em Deus não estão imunes à ansiedade e depressão. Na pregação que partilhei ontem numa congregação evangélica em Matosinhos, falei da resposta bíblica para esta problemática. Numa alusão ao Salmo 55, o apóstolo Pedro diz para lançarmos toda a nossa ansiedade em Deus (1 Pedro 5:7). Não se trata de fugir ao problema negando a ansiedade mas reconhecer que não conseguimos sozinhos tratar dela. Deus sabe tratar bem das nossas preocupações e angústias. A nossa parte activa é lançar e entregar, pela fé, os nossos cuidados a Deus.

Não é por acaso que o pano de fundo desta entrega seja a atitude de humilhação e submissão a Deus (ver I Pedro 5:5-6). Muitas vezes a ansiedade no cristão deve-se precisamente ao facto da falta de humildade para confiar na potente mão de Deus. A depressão pode esconder a enorme arrogância de pensar que se consegue sozinho resolver todos os problemas. Uma das razões porque podemos confiadamente lançar sobre Deus a nossa ansiedade é porque "Ele tem cuidado de nós!" Deus já provou, não só na história de vida de tantos crentes do passado, mas também na nossa própria vida, que sempre faz presente, cuidando, consolando e orientando os seus filhos.

A nossa responsabilidade não é passiva. Precisamos não só entregar os nossos cuidados a Deus, mas vivermos sobriamente, atentos e vigilantes. Existem forças espirituais em actividade feroz que procuram destruir-nos e que não podem ser desconsideradas. O nosso grande adversário, não são pessoas ou circunstâncias, é o diabo. Ele é o grande acusador, o caluniador, o mentiroso, o ladrão que procura roubar-nos e desviar-nos da comunhão e dependência de Deus. Somos chamados a resistir-lhe e a ficar firmes na fé (v. 9). Quando nos humilhamos perante Deus e resistimos ao diabo, ele sempre foge de nós (Tiago 4:7).

É verdade que podemos penar e sofrer durante algum tempo, mas temos a promessa que, nesse processo, Deus vai-nos aperfeiçoando, confirmando, fortificando e fortalecendo até ao Dia em que estaremos para sempre na Sua eterna presença. A Deus seja a glória e o poder para todo o sempre. Amém!

quinta-feira, maio 12, 2016

A tentação e a liberdade

O grande romancista russo Lev Tolstói conta a história de Evguéni, um jovem solteiro, bacharel em direito, que mantém um relacionamento sexual com Stepanida, uma bela camponesa casada. “Não que fosse um depravado”, desculpava-se ele, “era somente para satisfazer as suas necessidades físicas, para bem da sua saúde e da liberdade intelectual.”

Mais tarde, Evguéni conhece a esbelta Lisa e casa-se com ela. Um dia, ao entrar no seu quarto, Evguéni esbarra com Stepanida. Ela tinha vindo ajudar Lisa nas limpezas, juntamente com outra mulher. Ao ver a linda camponesa, renasce em Evguéni a ardente tentação de adulterar com ela. Consciente da abominação dos seus desejos, ele tenta esquecê-la, mas sem sucesso. Parece que a volúpia e a loucura tinham tomado conta de todo o seu ser. Evguéni definha mentalmente e fisicamente. Estava prisioneiro da sua “liberdade intelectual”.

Adão e Eva foram os humanos mais livres que a liberdade alguma vez pode ser. Podiam fazer tudo e comer tudo, com uma única ressalva: não deviam comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, pois se comessem morreriam. As instruções de Deus foram claras e precisas. As propostas da Serpente, por seu turno, eram carregadas de dúvidas e mentiras: “Não podeis vós comer de tudo? Talvez não morram! O que Deus não quer é que vocês sejam como Ele, realmente livres, conhecendo o bem e o mal!” Sabemos que Eva, infelizmente, engoliu a insinuação libertina lançada pelo diabo travestido de Serpente e comeu o fruto com o seu marido Adão. Desobedecendo à vontade de Deus, trouxeram consequências terríveis para eles e para todos nós. Perdemos ali a liberdade real.

Saltam-me duas lições da tentação no Éden. A primeira é que as propostas de Deus, ainda que não conheçamos todos os contornos, são claras, verdadeiras e libertadoras. As sugestões do diabo, por outro lado, são ambíguas, embusteiras e opressivas. Ceder à tentação é ficar amarrado. E as tentações não são só na área sexual. Existem centenas de outros “belos frutos” que nos procuram acorrentar. Deus liberta, satanás oprime e escraviza.

A segunda lição relaciona-se com a ilusão satânica de que a vontade de Deus não é assim tão boa, que talvez o melhor seja contrariar a direcção divina e fazer tudo o que nos apetece. Este engodo é servido num prato bonito, acompanhado com violinos, com promessas libertadoras de mais prazer, mais saber e mais poder. Grande engano.

C. S. Lewis sintetiza bem o logro na tentação: “A mentira consiste na sugestão de que estaremos mais seguros se nos preocuparmos prudentemente com a segurança das nossas finanças, com o nosso conforto e com as nossas ambições. Mas isso é falso. A nossa protecção verdadeira está na vida do cristão comum, na teologia moral, no pensamento racional equilibrado, nos conselhos de bons amigos e de bons livros, e, se necessário for, num hábil conselheiro espiritual. As aulas de natação são melhores do que uma tábua de salvação.”

A melhor maneira de lidarmos com as ondas da tentação é confiarmos mais no Criador dos oceanos do que nas nossas pobres tábuas de salvação. É submetermo-nos ao Senhor e continuarmos a nadar. Orar e vigiar para que a tentação não se transforme em afogamento. Um querido Pastor, que já está na presença do Senhor, costumava dizer que quando estamos de joelhos, o diabo não nos pode passar rasteiras. A oração demonstra que confiamos mais na vontade de Deus do que nas nossas traiçoeiras vontades.

Escusado será dizer que o conto que Tolstói apelidou de “O diabo”, que só foi publicado após a sua morte, termina mal. Tanto no final original, como no final alternativo, sente-se o odor pútrido da culpa mortal. “Havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado e o pecado, sendo consumado, gera a morte” (Tiago 1:15). Por mais atraentes que sejam as sugestões prazerosas da Serpente, são sempre maléficas e destruidoras. Não é o conhecimento do bem e do mal que nos liberta, é o conhecimento da verdade. Jesus Cristo é a verdade. Quando vivemos em Cristo e fazemos a Sua vontade, encontramos finalmente a liberdade.


Jorge Oliveira
(Crónica publicada na edição nº 161 - Abril/Junho 2016, na Revista Refrigério)

segunda-feira, maio 02, 2016

ComPaixão


A chamada “ Parábola do Bom samaritano” é talvez uma das mais grandiosas e representativas da misericórdia e amor do nosso Senhor Jesus Cristo. O doutor da Lei vinha para apanhar Jesus em alguma falha teológica ou contradição interpretativa, mas ele é que foi apanhado na sua contradição de vida. “Mestre, que farei para herdar a vida eterna?”, perguntou ele a Jesus. Embora a pergunta encerre alguns equívocos, todo o ser humano devia estar esclarecido quanto à importante pergunta: “Como posso ser salvo?

Jesus, à boa maneira judaica, responde à pergunta fazendo-lhe mais perguntas: “O que está escrito na Lei? Como lês?”. É interessante notar que Jesus aproveita o contexto daquele homem para o elucidar. É importante conhecermos a cosmovisão das outras pessoas para termos boas conversas. O doutor da Lei responde citando o Shemá, que dizia para amar a Deus e ao próximo (Dt 6:4-6). Jesus elogia a sua resposta e aconselha-o a fazer isso. Amar a Deus e ao próximo não era só o chamado do judeu, continua a ser o grande desafio do cristão. Importa entender que só amámos a Deus e aos outros porque Deus nos amou primeiro e quando permanecemos nesse Seu amor (Jo 15:9 e 1 Jo 4:19).

Como o doutor da Lei não estava em paz consigo próprio, reagiu mal e, sentindo-se acusado, fez outra perguntou a Jesus: “Quem é o meu próximo?” Para lhe responder, Jesus vai contar a tal história do samaritano.

Um homem descia de Jerusalém para Jericó e foi brutalmente assaltado, espancado e ficou moribundo. Passou primeiro um sacerdote por esse homem e depois um levita que fizeram vista grossa e ignoraram-no. Passou um samaritano que vendo-o “se moveu de íntima compaixão”. Tratou das feridas deste homem semimorto, levou-o para uma estalagem, cuidou dele, pagando-lhe a estadia e prometeu voltar. Jesus conclui, perguntando ao doutor qual dos três homens tinha sido o próximo do homem que foi assaltado? O doutor sem hesitar respondeu que foi “O que usou de misericórdia”.

Os Judeus, particularmente os líderes religiosos, odiavam os samaritanos. Era uma guerra religiosa e racial antiga. Jesus denuncia aqui a falsa religiosidade e a hipocrisia de falar e não viver no amor real. Dizer-se líder religioso, ou cristão evangélico, não significa automaticamente que se é bondoso e amoroso. Não chega entender e explicar as Escrituras temos que colocá-las em prática. A fé em Cristo requer cuidado e empenho e Cristo é o exemplo máximo desse amor e entrega (Rm 5:8).

Assim como o samaritano da história, Jesus Cristo não ficou indiferente a nós, pobres moribundos condenados ao inferno. Jesus tratou na cruz das nossas feridas, pagou as nossas dívidas, leva-nos à Estalagem/Igreja onde somos cuidados e aprendemos a cuidar uns dos outros e promete um dia voltar! O sacrifício de Jesus é o único que nos pode salvar. As obras boas são boas e desejáveis, mas não garantem a salvação eterna. Precisamos do amor Redentor.

O nosso próximo é aquela pessoa que precisa de nós. Pode ser alguém fora do nosso grupo de amigos ou conhecidos. Mais do que perdermos tempo a perguntar “Quem é o meu próximo?”, saibamos se estamos de facto NÓS próprios a ser próximos de quem precisa. A ideia central desta parábola é que o amor e a misericórdia de Deus são para ser recebidos e vividos por nós. Ouviste acerca daquele Samaritano que amou e cuidou de quem precisou dele? "Vai e FAZ da mesma maneira"(Lucas 10:37).

terça-feira, março 22, 2016

Estou a ouvir bem a Palavra?

Alister McGrath no seu livro Apologética pura e simples disse que O Iluminismo procurou fugir do carácter narrativo das Escrituras, considerando as suas histórias dispensáveis para entender o foco intelectual e moral da Bíblia. A Pós-modernidade parece que redescobriu o importante valor das histórias.

Jesus foi um grande contador de histórias. Cerca de um terço do seu ensinamento está registado sob a forma de histórias. “As parábolas são histórias terrenas que expressam significados celestiais”, escreveu Klyne Snodgrass. Estas pequenas narrativas alegóricas que Jesus contou parecem simples, mas escondem “mistérios” que poucos enxergam ou compreendem (Mateus 13:10-13). Mais do que tentar espiritualizar ou atribuir um significado preciso a cada detalhe, importa perceber os seus contextos e retirar a ideia central da parábola. “O caminho mais seguro para lidar com a parábola é procurar o pensamento central ou a ideia principal, em torno da qual todos os elementos subordinados se agrupam”, disse muito acertadamente Herbert Lockyer.

No Domingo comecei uma série de pregações de oito parábolas contadas por Jesus no Evangelho de Lucas. Começamos pela parábola do semeador e da semente (Lucas 8:4-15). Esta é das poucas parábolas em que o próprio Senhor Jesus fornece claramente a interpretação. A parábola trata da forma como ouvimos e reagimos à Palavra de Deus. São quatro tipos de solos que, ao receberem a boa semente - a Palavra de Deus -, respondem de formas distintas. A chave para o crescimento espiritual começa com a disposição para se ouvir bem. A dureza, as distracções, os espinhos, a superficialidade na fé não produzem resultados duradouros. A ideia fundamental a reter desta parábola é que quando ouvimos, cremos e obedecemos à Palavra de Deus, não só recebemos a salvação de Deus, vamos produzir frutos perseverantes. A semente está lançada, "Quem tem ouvidos para ouvir, ouça".

quarta-feira, março 09, 2016

"As pregações lidas são uma seca!"

Há falta de concentração nestes dias. Há pouca paciência para escutar, ler, silenciar, reflectir. Em mim também. Não faltam distracções a tentar roubar-nos a atenção. Nas Igrejas evangélicas exige-se pregações curtas e estimulantes. O pregador Henry Ward Beecher (1813 - 1887) disse que "A melhor maneira de tornar breve um sermão, é torná-lo mais interessante". Alguns pregadores usam artifícios criativos para cativar a atenção dos ouvintes: histórias, ilustrações, piadas, imagens, vídeos. Nada contra. Uso esses recursos, principalmente nas lições da Escola Bíblica Dominical e, desde que contribuam efectivamente para realçar a mensagem, considero-os benéficos. A grande problemática dos ornamentos criativos é quando não realçam a verdade bíblica e se tornam o objectivo. O mais importante da mensagem não é o embrulho, é o conteúdo. O perigo do papel criativo na mensagem é ele próprio ser o papel principal da mensagem.

Por falar em papel, talvez muitos cristãos evangélicos actualmente não apreciem muito uma pregação lida do púlpito. Se o sermão (e já o termo é pesado para muitos hoje) for lido num tom monocórdico e demorar mais de meia hora, então é que não há mesmo pachorra. “Uma seca!”, dirão alguns jovens e outros menos jovens, porque isto da falta de paciência não é um exclusivo juvenil. E o que dizer da leitura de orações em público? Em certos contextos evangélicos, ler orações em público é capaz de ser considerada uma prática herética, uma formalidade arcaica, conotada aos costumes católico-romanos. Entendo estes anticorpos protestantes, mas recordo que o protestante Martinho Lutero costumava usar a Litania. A Litania é uma das formas mais antigas de oração cristã, provavelmente adaptada do culto da sinagoga pela Igreja primitiva. Era uma série de intercessões, súplicas e invocações lidas, seguidas por respostas da congregação. Hoje, são poucas as igrejas evangélicas que as utilizam - talvez a Reforma esteja demasiado afastada da realidade das nossas Igrejas. É pena.

Digo isto, não porque preconize que as pregações e orações devem ser exclusivamente lidas, mas para darmos importância ao que de facto é importante. Desprezar apressadamente a forma sem considerar a substância, é um erro. Embora geralmente escreva o esboço das minhas pregações, não o leio de forma discursiva. Também não costumo ler orações na minha congregação, mas tenho pensado numa oração que John Stott mencionou no final do seu excelente livro "Eu Creio na Pregação", e que ele costumava fazer quando subia ao púlpito:

“Pai celeste, curvamo-nos diante da Tua presença.
Que Tua Palavra seja a nossa regra,
O Teu Espírito, o nosso mestre,
e a Tua maior glória a nossa ocupação suprema,
por Jesus Cristo, nosso Senhor."


Transcrevi-a para a minha Bíblia. Rememoro-a algumas vezes antes de pregar. Não foi Stott que a escreveu, mas tornou-a sua. Faço-a minha também. Identifico-me com tudo o que ela exprime. É o mote desta crónica. Quero subir ao púlpito de joelhos, consciente da presença do Altíssimo. Intercedo para que Deus me ajude a pregar nos limites da Palavra. Oro para que O Espírito Santo ilumine, convença e console os corações dos ouvintes. Anseio, sobretudo, pela suprema glória de Deus.

O que realmente me interessa é se aquilo que é pronunciado, seja de forma espontânea, escrita ou lida glorifica de facto a Deus. Em vez de desaprovarmos tanto a forma das coisas, julguemos a sua essência. Não rejeitemos uma mensagem ou uma oração só porque não segue uma pretensa espontaneidade que nós próprios idealizamos. Os judeus recitavam Salmos e orações. A Igreja primitiva também. As únicas repetições que Jesus reprovou foram as vãs. E no que concerne à oração, Jesus deu-nos um padrão que os evangelistas registaram para nós lermos, meditarmos e repetirmos. O embrulho é importante, o conteúdo é mais.


Jorge Oliveira
(Crónica publicada na edição nº 160 - Inverno 2016, na Revista Refrigério)

quarta-feira, novembro 18, 2015

Orar e agir

Depois de Neemias ouvir acerca da situação calamitosa e miserável em que se encontrava a cidade de Jerusalém, ficou extremamente desgostoso e triste. Graças a Deus que Neemias não ficou parado nesse pranto. Se Neemias tivesse ficado paralisado pelo choro e lamúria, Deus não o tinha usado na reconstrução das muralhas da cidade. Neemias decidiu orar e agir.

No seu comentário bíblico A Bíblia toda, o ano todo, John Stott destaca seis qualidades de liderança que Neemias evidenciou. Hoje de manhã meditei na terceira qualidade: O líder cristão busca a ajuda de Deus e das pessoas. Stott diz que "quando o rei perguntou a Neemias o que ele queria, ele primeiro 'orou ao Deus dos céus' e então pediu permissão ao rei para ir a Jerusalém e reconstruir a cidade. Ele não foi superespiritual a ponto de clamar somente a Deus e considerar a ajuda humana supérflua, nem excessivamente confiante nos recursos humanos, de modo a considerar a oração desnecessária. Orar e agir não são atitudes incompatíveis. Não precisamos escolher entre oração e acção. Ambas são necessárias, e uma sem a outra pode levar a um perigoso desequilíbrio." É muito fácil ser extremado nas questões espirituais e é aí que está muitas vezes a nossa doidice e a disparidade.

Outra boa qualidade do líder cristão é que ele faz planos realistas. Sabe conciliar a visão, os sonhos e as expectativas com a acção concreta. "Pessoas de visão precisam tornar-se pessoas de acção. Neemias, apesar de inspirado pela visão de reconstruir a cidade, precisou fazer planos. Logo que chegou a Jerusalém, ele decidiu fazer um reconhecimento pessoal da situação, saindo à noite para examinar os muros de Jerusalém. Assim, a verdadeira liderança inclui visão e acção, sonhos e planos", conclui Stott.

Orar e confiar em Deus, mas sempre fazendo o que tem que ser feito, contando com os recursos e as pessoas que Deus nos tem dado.

segunda-feira, novembro 09, 2015

Servir a Deus com alegria

Neste sábado, reflecti com uma vintena de jovens em Leça da Palmeira, sobre a importância do serviço alegre ao Senhor. As nossas desculpas para não servirmos a Deus vestem-se de tristes farrapos. “Servi ao Senhor com alegria!”, lemos no Salmo 100. Das muitas inferências que se podem colher deste Salmo, destacam-se três grandes conclusões:

1 - Servimos bem quando estamos bem doutrinados (vers. 3, 5). Saber que Deus é Deus. A boa teologia impele-nos sempre à adoração e ao serviço. Quanto mais conhecemos Deus, através de Cristo e da sua Palavra, mais queremos servi-lO. O contrário também é verdade.

2 - Um coração grato serve melhor a Deus (vers. 3,4). A ignorância, o desagradecimento e o egocentrismo desviam-nos do serviço. Quando vislumbramos as coisas extraordinárias que Deus fez, faz e fará, só pode despontar gratidão e louvor. Se isso ainda não nos impulsionar ao alegre serviço, deixemos de comer e beber.

3 - O bom servo veste-se com a humildade, autenticidade e verdade (vers. 5). Humildade porque Deus é Senhor e nós não. Servimos a Deus, porque somos alegres escravos do bom Senhor (Ef. 6:6,7). Autenticidade e verdade no serviço são imprescindíveis. Viver em pecado e depois pensar que se está a servir a um Deus santo, é puro auto-engano.

Estamos sempre a servir alguém, como bem o disse Dylan, "Gotta Serve Somebody". Deus não só ama ao que dá com alegria (2 Co 9:7), também ama (e muito!) a quem O serve com alegria. Estás tu a servir a Deus?

terça-feira, setembro 15, 2015

O perdão liberta, anima e levanta

O grande escritor John Stott conta que leu uma declaração de um director de um grande hospital para doentes mentais na Inglaterra com a seguinte sentença: “Eu poderia dar alta a metade dos meus pacientes amanhã se eles pudessem ter certeza de que foram perdoados”.

Quem não perdoa fica paralisado na vida. Fica acorrentado ao passado, no presente e impedido de caminhar no futuro. Quem quer prosseguir na vida tem mesmo que perdoar. Perdoar-nos a nós próprios, perdoar a quem nos ofende e, acima de tudo, aceitar o perdão gracioso de Deus.

Uma das razões porque o Apóstolo João escreveu a sua primeira carta foi para (nos) lembrar que através do nome, ou seja, da Pessoa, autoridade e obra de Deus em Cristo, os nossos pecados são perdoados. “Filhinhos, escrevo-vos porque, pelo seu nome, vos são perdoados os pecados” (1 João 2:12).

O perdão liberta, anima e levanta aquele que estava paralisado pela culpa, ressentimento e pecados. Porque muitas vezes não conseguimos nem temos vontade de perdoar, a fé é essencial no perdão. “E Jesus, vendo a fé deles, disse ao paralítico: Filho, tem bom ânimo; perdoados te são os teus pecados” Mateus 9:2. E o que era paralítico, por causa do perdão de Jesus, levantando-se, começou finalmente a andar.

quinta-feira, abril 23, 2015

Mil razões para ler livros

Um dia destes encontrei um pequeno livro de C. S. Lewis numa prateleira esquecida da histórica livraria da Porto Editora. Comprei-o logo. Em "A experiência de ler" Lewis discorre, com o brilhantismo que o caracteriza, do intrincado processo de escrita/leitura de um livro. Haverá realmente boa literatura? O que distingue um bom livro de um mau livro? É a capa? A história? A popularidade? O final? Lewis defende que o gosto pela leitura é, para os verdadeiros amantes de literatura, um fim em si mesmo e não um meio para qualquer outra coisa. A experiência de ler, com tudo o que isso abarca e envolve é o objectivo.

"A boa escrita incomoda sempre o leitor iliterato", diz Lewis. Mais importante que ler é saber ler-se. Quem chegou até aqui por causa do título deste post desengane-se. Não existem mil razões para ler livros precisamente porque os livros estimulam muito mais que mil neurónios por cada frase. Alguns dizem que o digital vai acabar por matar os livros no formato papel. Parece-me que os livros só acabam para quem nunca os lê. E isso, nota-se nos neurónios e em muitas outras coisas.

"O homem que se contenta com ser apenas ele próprio, e por conseguinte em ser menos vive numa prisão. Para mim, os meus olhos não são suficientes, quero ver através dos olhos de outras pessoas. A realidade, ainda que vista através dos olhos de muitos não é suficiente." C. S. Lewis.

Sim, há livros que são mais que palavras. Há palavras que são vida. Tenham um excelente dia.

quinta-feira, fevereiro 19, 2015

Não esquecer Alice

No Sábado fomos ver o filme "Still Alice" (O Meu Nome é Alice). Eu sei que nestes dias fala-se mais de filmes que promovem chibatas dominadoras do que aqueles que abordam coisas importantes. Mas talvez por eu já estar no limiar dos cinquenta, interesso-me mais por coisas luminosas do que por sombras da moda.

Curiosamente, a protagonista Alice Howland (Julianne Moore) também tem 50 anos. Tem (quase) tudo. É uma mulher inteligente e bonita, com um casamento feliz, os filhos realizados, uma carreira prestigiante no ensino universitário. Um dia, sem ela contar ou desejar - e ninguém conta ou deseja -, os dedos fatais do Alzheimer agarram-lhe a mente. Vieram para ficar. O que se faz quando se vai perder, de forma avassaladora e irreversível, a memória, a linguagem, o pensamento, a noção de si próprio e daqueles que se ama? O Alzheimer não desmembra só a pessoa doente, seca tudo e todos à sua volta.

A interpretação de Julianne Moore é soberba. A dupla de realizadores e argumentistas Richard Glatzer e Wash Westmoreland souberam recortar o essencial do best-seller de Lisa Genova. O final foge do cliché - um drama faz chorar, mas não tem que ser piegas. O Alzheimer altera radicalmente a forma como as pessoas vivem no mundo. Este filme pode mudar a forma como nós vemos o mundo. Amar mais, viver melhor, recordar o bom, resistir ao mal, sempre. "Still Alice" é um filme digno de Óscares, a sua luz deve ser vista e lembrada. Pelo menos enquanto nos pudermos.

segunda-feira, dezembro 08, 2014

A misericórdia cristã é prática

Partilhei ontem na querida Igreja Evangélica em Leça da Palmeira, a maravilhosa ordem de Jesus a Levi: Segue-me! Os religiosos daquele tempo ficaram furiosos quando Jesus, depois de ter chamado Levi (que mais tarde ficaria Mateus), participou num banquete em sua casa juntamente com outros publicanos, que os fariseus consideravam grandes pecadores.

Na concepção religiosa do nosso tempo continua a ideia que quanto mais afastados estivermos dos pecadores, mais santos ficaremos. Mas isto é um erro. Por mais que nos isolemos dos pecadores, o pecado, não só mora ao nosso lado, come connosco todos os dias. Está em nós. Jesus era conhecido como sendo "amigo dos pecadores", especialmente dos que se consideravam fracos, indignos e maus. Isto confundia (e ainda confunde) muito os "defensores da espiritualidade".

Os legalistas religiosos gostam de evidenciar a sua espiritualidade e santidade pelas formalidades exteriores, mas muitas vezes não são acompanhadas de amor e misericórdia. “Uma atitude misericordiosa, de amor e compaixão, é mais importante que a mera formalidade de obrigações religiosas, sem nenhuma preocupação com os outros”, disse D. L. Moody. É mais importante ter uma atitude amorosa, misericordiosa, perdoadora com os que nos rodeiam, a começar pelos nossos familiares e amigos, do que participar em actividades religiosas. A misericórdia cristã é prática. Quando estendemos a mão a quem precisa de nós, estamos a espalhar a graça de Deus. Estamos a seguir Jesus. E esse é o nosso maior chamado e desafio.

quarta-feira, dezembro 03, 2014

Barro luminoso

Um destes dias levantei-me da cama do meu quarto e não acendi a luz. Estava muito escuro. Quando procurava tocar a porta, encontrei uma parede. Por breves instantes tive aquela horrível sensação de desorientação semelhante à cegueira. Avancei esbaforido para a porta, mas como estava entreaberta, bati desalmadamente com a cabeça na porta. Embora "cego", vi estrelas. O “galo” ainda cá canta.

No sexto sinal, dos oito descritos no Evangelho de João, há uma estranheza maior além da própria estranheza já inerente aos milagres. Jesus cuspiu na terra e untou os olhos de um cego. Alguém sugeriu que a seguir à morte, a cegueira é a talvez a maior perda de um ser humano. Impede-nos de vislumbrar as maravilhas de Deus e dos homens, restringe a vida e faz-nos depender totalmente dos outros. A cegueira, as doenças, o mal, a morte são consequências da entrada do pecado na humanidade. Todos nascemos cegos, todos somos pecadores (Rm 3:23; Rm 5:12; Ef 2:1; 5).

“Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?” perguntaram os discípulos a Jesus. O pensamento judaico era dominado pela lei da retaliação - quem está a sofrer é porque fez algum mal. Infelizmente ainda hoje muitos cristãos (evangélicos também!), ainda continuam prisioneiros desta lei. A Teologia da prosperidade, por exemplo, ensina precisamente esse erro: toda a doença, pobreza e males vem do diabo e do pecado pessoal. Quem está doente é porque fez algum pecado e precisa de um exorcismo (e de dar mais uns dízimos dobrados).

Não há dúvida que o Pecado é o maior problema da humanidade. É por causa dele que as pessoas são condenadas eternamente. A única solução para o pecado é a confissão, o arrependimento sincero e a aceitação do perdão de Deus, mediante o Senhor Jesus. Também é verdade que existem doenças, sofrimentos e adversidades que são consequência directa do pecado e das más atitudes (1 Co 11:30; Tg 5:15). Mas esta passagem (e outras) ensina que nem toda a doença e sofrimento procedem directamente de um pecado pessoal ou familiar.

Foi o próprio Jesus que esclareceu que aquela cegueira não estava relacionada com o pecado do cego ou dos seus pais, antes serviria para a manifestação das obras de Deus, para a salvação daquele pobre homem. Muitas vezes não conhecemos as razões porque nos sucedem algumas desgraças e aflições, mas se confiamos no soberano Deus, acreditemos que Ele tem tudo no seu controle e que nada nos acontece por acaso. Há “males” na nossa vida que servem para o bem! Servem os seus elevados propósitos.

Porque é que Jesus cuspiu na terra e colocou aquele barro nos olhos do cego? Não sei em concreto. Sei que Jesus é Deus e que pode usar os métodos que podem parecer-nos “estranhos”, mas que são sempre os melhores. Estaria neste barro uma alusão ao processo criador de Deus na formação inicial do homem com pó da terra (Gn 2:7)? Talvez. Calvino sugere que Jesus tapou com barro os olhos cegos do homem para intensificar ainda mais o milagre. O cego precisava ser ainda mais cego para que o sinal fosse inequívoco.

A seguir, Jesus mandou o cego lavar-se no tanque de Siloé (v. 7). Aquele que foi enviado pelo Pai, enviou o cego a banhos. Este tanque simbolizava um teste de fé e obediência para aquele homem. Ao contrário do chefe do Rei da Síria, Naamã (2 Re 5) o cego não questionou a estranheza e a simplicidade dos métodos divinos. Foi e lavou-se. Quando se lavou, começou a ver. Mas este milagre, para além de gerar curiosidade em muitos, provocou medo nos seus pais e inveja e descrença nos religiosos incrédulos.

Jesus foi novamente ao encontro do homem que tinha sido cego. Nesse precioso encontro, o que já não era cego começou finalmente a ver. Espiritualmente. Creu no Filho de Deus e adorou-O (v. 35-41). Jesus é a luz do mundo. Ele não só fez a luz, faz-se luz para que todos os que nele crêem não andem em trevas. Ele ilumina, perdoa, solta, anima e aviva. Que possamos também ser o barro luminoso nas suas mãos para este mundo em trevas. Que Ele nos ajude.

quarta-feira, setembro 17, 2014

A vontade de Deus é sempre a melhor

As primeiras instruções que Deus deu a Adão e Eva foram muito claras e precisas, não deixavam margem para qualquer dúvida: “Podem comer de tudo, menos do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, pois se comerem morrem.” A proposta da serpente, ao contrário, lançou imprecisões, dúvidas e ilusões trapaceiras: “Talvez não morram. Não é bem como Deus diz. Se comerem, vocês ficarão melhores, serão como Deus, conhecendo e dominando o bem e o mal!”

Saltam-me duas lições importantes daqui. A primeira é que as palavras e as ordens de Deus, ainda que não conheçamos todos os seus contornos, são sempre claras e verdadeiras. Já as propostas do diabo são sempre ambíguas, impostoras e mentirosas. Deus é luz, o diabo é trevas. Deus é a verdade, satanás é o pai da mentira.

A segunda lição relaciona-se com a ilusão satânica que a vontade de Deus não é assim tão boa e que o melhor é contrariar essa vontade. O velho ditado popular “o proibido é o mais apetecido”. A falácia vem embrulhada num apelo sensorial apetitoso e na promessa de uma satisfação imediata. Puro engano.

A história revela que as consequências da desobediência foram letais para todos. Não somos chamados a conhecer tudo, mas a obedecer a Deus e à verdade da sua Palavra. A Palavra de Deus esclarece e vivifica, a palavra do diabo confunde e mata. Não existe nada maior e melhor que obedecer à vontade de Deus. A sua vontade é “boa, agradável e perfeita”.

quinta-feira, setembro 11, 2014

Criados para socializar

Fomos criados para socializar. Quando Deus criou o homem notou que tudo era bom; mas houve uma coisa que Deus viu que não boa: a solidão. Faltava algo a Adão. Eva foi criada por Deus para que homem e mulher desfrutassem da presença e do amor dos da sua espécie. O ser humano procura e precisa do outro. Somos seres sociais. Encontramo-nos e realizamo-nos também no nosso próximo.

Não é de estranhar por isso que as redes sociais tenham tanto êxito. O homem e a mulher continuam a procurar o seu semelhante. Contudo, e por mais avançada que esteja a tecnologia, a melhor socialização que se poderá ter é - e sempre será! - “ao vivo e a cores”. Cara a cara. Nada substitui o cheiro, o toque, o calor, o som da batida acelerada de outro coração humano que está perto. O virtual será sempre só isso - uma imitação. Uma sombra pálida da realidade. A realidade nem sempre é aquela coisa cor-de-rosa e feliz que transparece tantas vezes das redes sociais. A vida real não é assim. Se é verdade que muitas pessoas se escondem no virtual, também é certo que existem outras pessoas que se escondem da vida virtual, com medo que a sua vida mesquinha real se torne conhecida. O tempo irá demonstrar que a virtualidade não acrescenta nem diminui nada à verdade.

Fomos feitos para a comunhão: com Deus e com as pessoas. Quando um individuo não tem prazer em estar com outras pessoas, provavelmente sofre de algum tipo de patologia relacional, emocional e espiritual. As feridas de uma má sociabilização deixam sempre marcas interiores profundas. Na dinâmica relacional, a comunhão com o nosso criador é fundamental. Spurgeon disse que "se formos fracos em nossa comunhão com Deus, seremos fracos em tudo." Estando de boa comunhão com Deus, inevitavelmente estaremos bem com as pessoas que nos rodeiam. Seja no mundo real ou virtual.

“E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só.” (Gén. 2:18)

terça-feira, maio 27, 2014

Aprender a descansar

Seja por causa da extenuante carga horária escolar a que os jovens estão sujeitos, ou pelas inúmeras actividades desportivas, musicais e extracurriculares que os pais os carregam, seja por causa da pressão dos testes, dos exames, dos trabalhos práticos, seja na sequência da tensão competitiva, da melhor performance e resultados, ou mesmo por causa da conflitualidade familiar, relacional e financeira que muitos vivenciam, os jovens precisam mesmo aprender a descansar. Precisam os jovens e os que já não são jovens. Mas onde está efectivamente o verdadeiro descanso?

Leia o artigo que escrevi para a (recentemente remodelada) revista Refrigério, AQUI.