Mostrar mensagens com a etiqueta A Pena do JÓ. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta A Pena do JÓ. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, janeiro 17, 2018

O orgulho engana e mata

"A soberba do teu coração te enganou" (Obadias 1:3).

Aprende-se muito com as histórias do Antigo Testamento. A história do povo de Israel tem muito para ensinar à Igreja. Isto não significa que tudo o que está escrito no Antigo Testamento tem que ter uma aplicabilidade directa para os cristãos hoje, são os princípios espirituais que se mantêm actuais e pertinentes para os nossos dias. Obadias é o livro mais pequeno do Antigo Testamento. Em poucos versículos é descrita a conflitualidade que persistia nos descendentes dos dois filhos de Isaque: Jacó e Esaú. As constantes querelas e inimizades entre irmãos são terríveis. Tantas zangas, divisões e guerras têm acontecido por causa do ódio entre irmãos.

Embora os edomitas fossem descendentes de Esaú, sempre se opuseram a Deus e ao povo de Israel. À data desta profecia (provavelmente por volta do ano 587 A.C.), a sua capital estava localizada em Petra, na actual Jordânia. Era uma cidade bem guardada, edificada em altos rochedos e de difícil acesso. Como estava na confluência de importantes rotas comerciais, os edomitas enriqueceram, fortaleceram-se e fecharam-se sobre si próprios. Por ser um povo forte, próspero, que se julgava invencível, cresceu no coração dos edomitas uma profunda soberba e arrogância. Além disso, Obadias expõe a violência e o desprezo que os edomitas tiveram com os seus irmãos da tribo de Judá, quando eles precisaram de ajuda (v. 10-14). Voltar as costas aos nossos irmãos quando eles estão a passar dificuldades e quando pedem a nossa ajuda é a mais abominável das soberbas.

Um dos propósitos desta profecia é mostrar que Deus castiga aqueles que desprezam e afligem o seu povo. Quem maltrata os filhos de Deus está a meter-se com o próprio Deus. A profecia do Servo do Senhor acerca do juízo divino contra os edomitas cumpriu-se na sua totalidade. Os edomitas foram conquistados e expulsos das altas montanhas e totalmente exterminados cerca de quatrocentos anos mais tarde, na época dos macabeus. Aquilo que Deus determina cumpre-se sempre. Assim como Deus destruiu este povo arrogante, o Senhor irá punir todas as pessoas orgulhosas e maldosas. A indiferença e a soberba que se entranhe no coração de um indivíduo, não só o engana, mas arruína toda a sua vida. A amargura crava raízes no coração e contamina todo o ser.

Mas também há esperança nas palavras de Obadias. Ao contrário dos edomitas, Deus não abandona o seu povo – seria feita justiça a Judá. Deus nunca desampara o seu povo. Lembremo-nos que o Dia do Senhor está perto (v. 15). Jesus vai voltar e julgar as pessoas orgulhosas e as nações que desprezam o povo de Deus. Rejeitemos toda a auto-suficiência e soberba que se queiram alojar no nosso coração. Ajudemos os nossos irmãos, especialmente quando estiverem em apuros. É melhor confiar e depender de Deus do que do nosso coração. O reino não é nosso, “o reino será do Senhor" (Ob 1:21 e Ap 11:15). O livro menor do Antigo Testamento tem coisas maiores para a nossa vida.

Jorge Oliveira
(Crónica publicada na edição nº 168 - Janeiro-Março 2017, na Revista Refrigério)

quinta-feira, outubro 19, 2017

Somente a Escritura

Este ano assinalam-se os 500 anos da Reforma Protestante. Uma das grandes luzes reacendida na Reforma foi o retorno à luminosa verdade das Escrituras sagradas. A Sola Scriptura foi uma das grandes bandeiras dos reformistas do XVI e deve continuar a ser a bandeira dos cristãos do século XXI. A Bíblia é a Palavra de Deus. A Bíblia é a revelação final e completa de Deus, é a verdade divina que nos conduz à salvação graciosa por Jesus Cristo. A autoridade das Escrituras suplanta opiniões de papas, apóstolos, padres, pastores e é superior a todas as tradições e ensinamentos humanos. A tradução da Bíblia das línguas originais para as línguas vernáculas e contemporâneas, foi um dos grandes legados da Reforma Protestante.

Por outro lado, o facto de se começar a ler a Bíblia de forma individual e livre originou também alguns equívocos e heresias ao longo dos séculos. O padre António Vieira, comentando a tentação de Jesus, escreveu que “as Palavras de Deus tomadas em sentido alheio são armas do Diabo.” É fundamental interpretar bem as palavras da Palavra. "O texto fora do contexto serve sempre de pretexto." Um dos livros que li nestas férias foi a extraordinária colecção de reflexões teológicas de Luiz Sayão, Agora Sim! Teologia do começo ao fim. A propósito da má compreensão que há na leitura da Palavra de Deus, Sayão escreve: “É preciso estudar a Bíblia no seu próprio contexto, entendendo os elementos históricos, literários e teológicos para que conheçamos ao máximo a intenção original do texto. Depois disso, temos a tarefa de destacar os princípios que estão presentes no texto, para então comparar o que descobrimos com uma análise teológica mais profunda, a partir de outros textos importantes que falam do princípio descoberto no texto inicialmente analisado. Finalmente, devemos fazer a aplicação do princípio descoberto e teologicamente analisado na realidade do quotidiano.” A boa interpretação da Bíblia tem presente o pano histórico, o contexto dos versículos, do livro e a intenção original do texto. Só assim se consegue extrair bem os princípios e as verdades espirituais que devemos aplicar nos nossos dias.

É fundamental por isso contextualizar a leitura e a interpretação da Palavra, mas, por outro lado a leitura Bíblica não é uma coisa meramente técnica ou normativa. A aproximação descontextualizada da Bíblia é loucura, mas maior loucura é aproximarmo-nos da Bíblia como se apenas letra se tratasse. A ignorância desvia, a letra mata. A Bíblia é muito mais que um livro, a Palavra de Deus é alimento e vida espiritual.

Perante a magnificente herança que os reformistas recolocaram nas nossas mãos, fico assustado ao constatar o descompromisso com a Palavra de Deus de alguns pregadores actuais. Em vez de deixarem a Palavra falar, enchem os seus sermões com as suas próprias palavras, opiniões e temáticas. O escritor Hernandes Dias Lopes, na biografia que escreveu acerca do Apóstolo Paulo, realça o grande compromisso do Apóstolo com a Palavra de Deus (Actos 20:20-27). Hernandes Lopes conclui que “O líder espiritual precisa ensinar só a Bíblia e toda a Bíblia. Ele não pode aproximar-se das Escrituras com selectividade. Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino e a correcção. A única maneira de o líder espiritual cumprir esse desiderato é pregar a Palavra expositivamente. Não pregar suas próprias ideias, mas a Palavra. Não entregar a sua mensagem, mas a de Deus. A mensagem deve emanar das Escrituras.”

Nestes dias tão confusos e desnorteados é fácil perder o Norte do rumo espiritual. Precisamos de um farol espiritual que seja seguro e confiável. A Bíblia é essa Luz. A Palavra de Deus ilumina, orienta, salva e liberta. “Lâmpada para os meus pés é tua palavra e luz, para o meu caminho.” (Salmo 119:105). As Escrituras Sagradas revelam o sentido da vida e dão-nos o sentido para a vida. A Palavra de Deus é viva e eficaz. Meditemos, preguemos e vivamos a Palavra de Deus. “A exposição das tuas palavras dá luz e dá entendimento aos símplices.” (Salmo 119:130).

Jorge Oliveira
(Crónica publicada na edição nº 167 - Outubro-Dezembro 2017, na Revista Refrigério)

quinta-feira, julho 13, 2017

O choro dos velhos bebés

São quase dez horas da noite. O bebé do meu vizinho está a chorar a plenos pulmões há mais de meia hora. Terá fome? Estará com frio? Fralda suja? Talvez esteja doente. Porquê é que o choro dos bebés nos incomoda tanto? Pode estar a pedir colinho. O mais provável é estar com muito sono. Continua a gritar. Ninguém gosta de ouvir um bebé a chorar.

Recentemente tive a graça de orientar uma apresentação de um encantador bebé ao Senhor, na nossa congregação. A maior parte dos evangélicos não baptiza os seus bebés porque considera o baptismo uma coisa séria demais para meninos. O baptismo é para gente grande que conhece e reconhece o seu pecado. O baptismo nas águas é para aqueles que sabem porque é que Jesus morreu, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia. No decorrer da apresentação ao Senhor, o bebé choramingou um pouco. É normal. Por muito que custe aos pais, uma das maneiras que os bebés se fazem notar neste mundo é com o choro. Choram quando têm fome, sono, medo, quando estão doentes. Era bom que muitos destes bebés chorassem todos os Domingos nas igrejas locais! Enquanto decorria a apresentação, foi interessante perceber que o bebé parava de chorar quando ouvia a música e quando começávamos a cantar louvores a Deus – todos os meninos gostam dos louvores a Deus. Para grande júbilo dos pais, avós e padrinhos, ouviu-se muita música naquela apresentação.

A Bíblia diz que também existem bebés espirituais nas igrejas (1 Coríntios 3:1; Hebreus 5:12, 13; 1 Pedro 2:2). Existem os crentes novos que são bebés na fé e há os bebés velhos que estão doentes na fé. Crentes novinhos, que estão ávidos da boa Palavra de Deus e crentes velhos, que desprezam e vomitam a boa comida. O escritor aos Hebreus fala deste tipo de bebés chorões (Hebreus 5:12-14). Estes velhos bebés chorões são pessoas imaturas que cresceram mal ou não cresceram como deviam, face ao tempo que se dizem crentes. Pensam, falam e portam-se como meninos. Choram, amuam, fazem birras, desistem de crescer, querem atenção. Normalmente, estes bebezões reclamam muito e estão sempre descontentes com tudo. Queixam-se da sua igreja local, dos crentes, dos líderes, da música, das pregações, protestam contra tudo e todos. São velhos protestantes, não os descendentes da boa Reforma, mas velhos imberbes com barba que nunca cresceram. No jardim da vida real, esta infantilidade é tal qual erva daninha que sufoca o sol e a frescura da vida.

A única maneira de um bebé começar a crescer é começar a alimentar-se bem. O melhor alimento espiritual é a Palavra de Deus. Só quando o crente medita e pratica os “primeiros rudimentos das palavras de Deus” que começa a ficar gente grande na fé. Se um crente despreza o “a-e-i-o-u” dos fundamentos da fé, não admira que seja e se porte como um bebé espiritual. Um bom sinal de maturidade espiritual é amar a Palavra de Deus, a sã doutrina. Um outro indício de bom crescimento é, ao invés de estar sempre pronto a apontar as falhas dos outros, reconhecer com as suas próprias falhas e pecados. É saber valorizar o que é eterno e desvalorizar o que é efémero. É amar e perdoar. É cair, levantar-se e continuar a caminhar.

O bebé do meu vizinho calou-se. Deve ter adormecido. O choro também cansa. O adulto que é adulto crescido, tem paciência para confiar e esperar na graça abundante do Pai celestial. Sabe que nada pode realizar sem Ele e sem a Sua Palavra. O Pai, afinal de contas, tem soberanamente todos os pequenos e graúdos nas Suas poderosas mãos. O nosso desafio pessoal é crescer todos os dias um pouco mais. Não ficar estagnados, antes “crescer na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo e a dar-lhe glória, assim agora como no dia da eternidade. Amém!” (2 Pedro 3:18).


Jorge Oliveira
(Crónica publicada na edição nº 166 - Julho-Setembro 2017, na Revista Refrigério)

quarta-feira, abril 19, 2017

O segredo está na massa

Num estudo realizado por uma equipa de cientistas da Universidade da Califórnia foi descoberto o segredo da longevidade dos monumentos romanos, que resistem firmes há mais dois milénios. O segredo está "na massa". Melhor dizendo, na argamassa, o ligante que une as diferentes pedras das construções. Quando os investigadores misturaram a argamassa de acordo com a fórmula do arquitecto romano Vitrúvio, verificaram que a mistura continha aglomerados de um mineral chamado “stratlingite”, formado pela reacção entre o calcário e a matéria vulcânica. Concluíram que os cristais de “stratlingite” são semelhantes às microfibras usadas nas argamassas actuais, só que as massas romanas oferecem um reforço maior e são ainda mais resistentes à corrosão.

Esta descoberta fez-me pensar nos relacionamentos humanos. Haverá algum segredo que garanta a longevidade nos relacionamentos? Porque é que algumas amizades, casamentos e relacionamentos são duradouros e outros não? Existirá algum ligante que una as pessoas?
Sem dúvida que as relações humanas são complexas, e sem querer simplificar aquilo que é complicado, acredito que existe efectivamente algo que faz solidificar os relacionamentos humanos. É o amor. O amor é o melhor ligante nos relacionamentos. Quando digo amor, estou a pensar em todos os contornos que o amor abarca: o respeito, a confiança, o perdão, o apoio. Quem ama respeita, quem ama confia, quem ama perdoa, quem ama apoia e suporta.

Assim como existem testes à solidez das argamassas, também há testes que comprovam a solidez dos relacionamentos. Estou a lembrar-me de três testes: o teste da ausência, o teste da divergência e o teste da lealdade.
1. A ausência pode enfraquecer um relacionamento, mas também pode potenciar e fazer aumentar o amor e a saudade. Não é por um familiar viajar ou emigrar que o deixamos de amar. O reencontro é uma festa. Amigos verdadeiros não se perdem, quer estejamos perto ou longe deles. O amor resiste ao teste da distância e do tempo.

2. O segundo teste é o da divergência. Existem discordâncias e conflitos em todos os relacionamentos. Quando não conseguimos superar as discórdias e nem respeitamos opiniões divergentes falta-nos amor. Para se cultivar bons relacionamentos é fundamental ter boa memória para as coisas boas e má memória para as más. Saber ouvir e perdoar quem não concorda connosco não só é prova de educação, é sintoma de bom relacionamento. "Em todo o tempo ama o amigo; e na angústia nasce o irmão" (Provérbios 17:17).

3. Um terceiro teste é o da lealdade. Lealdade no sentido de fidelidade e no guardar as costas do meu amigo. Blaise Pascal advertiu que “poucas amizades subsistiriam se cada um soubesse aquilo que o amigo diz de si nas suas costas”. A Bíblia refere que Jónatas defendeu o seu amigo Davi perante as acusações injustas do seu pai Saúl. Por ser um bom amigo fiel, Jónatas ia sendo morto quando Saúl ficou de tal forma enfurecido que tentou matá-lo. A lealdade é essencial em qualquer relacionamento.

O maior exemplo de firmeza e solidez nos relacionamentos foi dado por Jesus Cristo. Ele é o nosso melhor amigo. Perante o nosso distanciamento pecaminoso, Jesus amou-nos, morreu e ressuscitou para nos salvar. Não há maior prova de amor e amizade que esta (João 15:13).

À semelhança dos sólidos edifícios romanos, a durabilidade das relações depende do ligante usado. O amor, o perdão, a lealdade, o sorriso, estão certamente no topo da lista dos melhores ligantes humanos. Fortalecem as relações e fazem-nas perdurar no tempo.

Escrevi há algum tempo aqui que a durabilidade da amizade é quase como a da salvação. Ou se é salvo, ou nunca se foi. Ou se é amigo ou nunca se foi. Assim como nunca se perde a salvação, nunca se perdem os verdadeiros amigos.


Jorge Oliveira
(Crónica publicada na edição nº 165 - Abril-Junho 2017, na Revista Refrigério)

segunda-feira, janeiro 30, 2017

A Verdade suplanta a Pós-verdade

A Porto Editora tem promovido nos últimos anos a eleição de uma palavra que procura enaltecer a riqueza lexical da língua portuguesa. No ano de 2016, a palavra escolhida foi “Geringonça”. Este vocábulo foi usado para designar a coligação parlamentar que apoia o actual governo de esquerda. “Geringonça” simboliza uma coisa malfeita e com pouca solidez. Ao contrário do que muitos imaginaram, a Geringonça esquerdina lá se tem aguentado.

No final do ano passado, os editores que publicam os famosos dicionários britânicos "Oxford" também escolheram a sua palavra do ano. A escolha recaiu na curiosa expressão “post-truth”, que pode ser traduzida para português como “pós-verdade”. Esta expressão surge no contexto da saída britânica da União Europeia (o “Brexit”) e na sequência da surpreendente eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos. Segundo os dicionários Oxford, pós-verdade é um adjectivo que faz referência a circunstâncias em que os factos objectivos têm menos influência na formação de opinião pública do que os apelos emocionais e as opiniões pessoais. Ou seja, as opiniões e emoções vencem a verdade factual. Parece que o mais importante no pensamento actual é aquilo que cada pessoa opina, defende e escolhe acreditar. A pessoa é toda a verdade que existe. Na cosmovisão pós-moderna (que de moderna não tem nada), cada um tem o seu ponto de vista e isso é a verdade que importa.

Obviamente que a pós-verdade remexe com as entranhas de qualquer protestante esclarecido. O cristão acredita que há uma só verdade, a qual é Jesus Cristo. Os cristãos podem enganar-se, Cristo não. As verdades humanas são relativas e tendenciosas, Jesus Cristo é a única verdade completa, perfeita e absoluta. Partir do pressuposto que a nossa limitada opinião é toda a verdade que existe é fazer da própria verdade um embuste.

A era da “pós-verdade” não é nova. A Bíblia identifica claramente o inventor da pós-verdade: o diabo. Não há verdade nele e a mentira é aquilo que verdadeiramente o caracteriza. Ele sabe que o inferno está cheio de opiniões e emoções. Talvez o grande catedrático da pós-verdade tenha sido Pôncio Pilatos quando perguntou à própria Verdade encarnada o que era a verdade (João 18:38). Pilatos mandou matar a Verdade. Mas crucificar a Verdade não a cala. A Verdade suplantou a mais tenebrosa das tumbas.


Gosto de um belo texto do russo Fiodor Dostoievski em “Diário de um Escritor”:
Nós já esquecemos completamente o axioma de que que a verdade é a coisa mais poética no mundo, especialmente no seu estado puro. Mais do que isso: é ainda mais fantástica que aquilo que a mente humana é capaz de fabricar ou conceber. De facto, os homens conseguiram finalmente ser bem-sucedidos em converter tudo o que a mente humana é capaz de mentir e acreditar em algo mais compreensível que a verdade, e é isso que prevalece por todo o mundo. Durante séculos a verdade irá continuar à frente do nariz das pessoas mas estas não a tomarão: irão persegui-la através da fabricação, precisamente porque procuram algo fantástico e utópico.

A “pós-verdade” é trágica. Tudo o que seja antes e depois da verdade é mentira. A verdade é muitas vezes diferente do que nos contam, do que se lê e vê nas televisões, jornais e redes sociais. A realidade virtual é isso mesmo: apenas virtual. A pior ilusão que a revolução tecnológica nos trouxe foi levar-nos a pensar que aquilo que lemos e ouvimos dos nossos “amigos”, “seguidores”, grupos e guetos é toda a verdade que existe. Não é.

A resposta que Jesus deu ao céptico Tomé, permanece verdadeiramente imprescindível para o Homem pós-verdade: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim" - João 14:6. A Verdade é O caminho que se faz Vida. Andemos nEle.


Jorge Oliveira
(Crónica publicada na edição nº 164 - Janeiro-Março 2017, na Revista Refrigério)

sexta-feira, outubro 21, 2016

A morte da Morte

A morte não é um tema popular. Preferimos não pensar muito nisso. Aquilo que talvez mais choca a nossa alienada cultura imediatista é a morte. A morte perturba. Ela infunde terror e semeia o desespero da ausência para quem fica. Independentemente das crenças e práticas, por mais previsível que seja, a morte sempre alvoroça o mundo dos vivos. Ainda que se procure fazer tudo para a esquecer, retardar e ocultar, um dia a morte bate-nos à porta.

Aspirações e sonhos são interrompidos a crianças e jovens. Casais são separados. Ricos e pobres, cientistas brilhantes e artistas talentosos, sábios e ignorantes, fortes e fracos, todos sem excepção, são ceifados pela tenebrosa gadanha mortal. A morte escancara a nossa finitude e ri-se dos tolos distraídos. Perante a inevitabilidade da morte alguns tentam apressá-la. Uns suicidam-se, outros fenecem lentamente. Todos partem.
Mas a morte, talvez sem nunca o saber e imaginar - porque se há coisa que a morte não consegue fazer é sonhar -, também pode fazer sobressair a vida. Nos contornos sombrios do vale da Morte é possível vislumbrar os dedos luminosos da Vida. O fim pode ser o princípio.

A Bíblia ensina que a morte humana é o resultado do pecado humano: “Pelo que, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, por isso que todos pecaram” (Romanos 5:12). Morremos porque somos pecadores. Deus tinha avisado Adão e Eva que a desobediência seria fatal (Génesis 2:17; 3:3). A morte espalhou-se no universo. Neste cenário mortal, Deus vai intervir e resolver o castigo da morte, com a morte. Num acto de graça e bondade, Deus envia o seu Filho Jesus para morrer sacrificialmente pelo pecado da humanidade. “Onde o pecado abundou, superabundou a graça; para que, assim como o pecado reinou na morte, também a graça reinasse pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo, nosso Senhor” (Romanos 5:21).

No seu livro Milagres, C. S. Lewis contrasta dois aspectos da morte: "Por um lado, a Morte é o triunfo de Satanás, a punição pela Queda e o último inimigo. Cristo derramou lágrimas no túmulo de Lázaro e suou sangue no Getsémani. A Vida das vidas que estava nEle não odiou menos do que nós este castigo cruel – odiou-o ainda mais. Por outro lado, só aquele que perde a própria vida a salvará. Somos baptizados na morte de Cristo, e ela é o remédio para a Queda. Na verdade, a morte é o que alguns indivíduos hoje chamam de ‘ambivalente’. Ela é a grande arma de Satanás e também a grande arma de Deus. É sagrada e profana. A nossa suprema desgraça e a nossa única esperança, aquilo que Cristo veio conquistar e o meio pelo qual Ele efectuou a conquista." Na agenda de Deus, a morte é o último inimigo do homem a ser completamente erradicado, mas a morte também é o remédio divino.

Antes de morrer, José Saramago deu uma entrevista ao Courier Internacional, aquando do lançamento do seu livro As intermitências da morte, onde afirmou que “O problema da Igreja é que precisa da morte para viver. Sem morte não poderia haver Igreja porque não haveria ressurreição. As religiões cristãs alimentam-se da morte.” Saramago aqui não se enganou muito. Na realidade, os verdadeiros cristãos sabem que a morte e a ressurreição de Cristo são os pilares da sua fé e vida. Jesus morreu e ressuscitou para nos salvar e para nos libertar do medo da morte (Hebreus 2:14-15). Em vez de tentarmos agarrar o breve vapor desta vida e vivendo aterrorizados com a morte, apeguemo-nos ao valor eterno da morte de Cristo.

Henri Nouwen conta que viu num cemitério da Irlanda do Norte um epitáfio numa cruz de madeira com a frase: "Onde a morte é declarada, a esperança encontra as suas raízes." Sim, há Vida para além da vida. A morte treme e sucumbe perante a cruz ensanguentada. A morte sabe que também morreu ali. A única esperança na vida é a paz e a vitória que brotam do túmulo vazio do Cristo. Deus matou a morte. A morte já não nos mete medo. Está morta.

Jorge Oliveira
(Crónica publicada na edição nº 163 - Outubro-Dezembro 2016, na Revista Refrigério)

quinta-feira, maio 12, 2016

A tentação e a liberdade

O grande romancista russo Lev Tolstói conta a história de Evguéni, um jovem solteiro, bacharel em direito, que mantém um relacionamento sexual com Stepanida, uma bela camponesa casada. “Não que fosse um depravado”, desculpava-se ele, “era somente para satisfazer as suas necessidades físicas, para bem da sua saúde e da liberdade intelectual.”

Mais tarde, Evguéni conhece a esbelta Lisa e casa-se com ela. Um dia, ao entrar no seu quarto, Evguéni esbarra com Stepanida. Ela tinha vindo ajudar Lisa nas limpezas, juntamente com outra mulher. Ao ver a linda camponesa, renasce em Evguéni a ardente tentação de adulterar com ela. Consciente da abominação dos seus desejos, ele tenta esquecê-la, mas sem sucesso. Parece que a volúpia e a loucura tinham tomado conta de todo o seu ser. Evguéni definha mentalmente e fisicamente. Estava prisioneiro da sua “liberdade intelectual”.

Adão e Eva foram os humanos mais livres que a liberdade alguma vez pode ser. Podiam fazer tudo e comer tudo, com uma única ressalva: não deviam comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, pois se comessem morreriam. As instruções de Deus foram claras e precisas. As propostas da Serpente, por seu turno, eram carregadas de dúvidas e mentiras: “Não podeis vós comer de tudo? Talvez não morram! O que Deus não quer é que vocês sejam como Ele, realmente livres, conhecendo o bem e o mal!” Sabemos que Eva, infelizmente, engoliu a insinuação libertina lançada pelo diabo travestido de Serpente e comeu o fruto com o seu marido Adão. Desobedecendo à vontade de Deus, trouxeram consequências terríveis para eles e para todos nós. Perdemos ali a liberdade real.

Saltam-me duas lições da tentação no Éden. A primeira é que as propostas de Deus, ainda que não conheçamos todos os contornos, são claras, verdadeiras e libertadoras. As sugestões do diabo, por outro lado, são ambíguas, embusteiras e opressivas. Ceder à tentação é ficar amarrado. E as tentações não são só na área sexual. Existem centenas de outros “belos frutos” que nos procuram acorrentar. Deus liberta, satanás oprime e escraviza.

A segunda lição relaciona-se com a ilusão satânica de que a vontade de Deus não é assim tão boa, que talvez o melhor seja contrariar a direcção divina e fazer tudo o que nos apetece. Este engodo é servido num prato bonito, acompanhado com violinos, com promessas libertadoras de mais prazer, mais saber e mais poder. Grande engano.

C. S. Lewis sintetiza bem o logro na tentação: “A mentira consiste na sugestão de que estaremos mais seguros se nos preocuparmos prudentemente com a segurança das nossas finanças, com o nosso conforto e com as nossas ambições. Mas isso é falso. A nossa protecção verdadeira está na vida do cristão comum, na teologia moral, no pensamento racional equilibrado, nos conselhos de bons amigos e de bons livros, e, se necessário for, num hábil conselheiro espiritual. As aulas de natação são melhores do que uma tábua de salvação.”

A melhor maneira de lidarmos com as ondas da tentação é confiarmos mais no Criador dos oceanos do que nas nossas pobres tábuas de salvação. É submetermo-nos ao Senhor e continuarmos a nadar. Orar e vigiar para que a tentação não se transforme em afogamento. Um querido Pastor, que já está na presença do Senhor, costumava dizer que quando estamos de joelhos, o diabo não nos pode passar rasteiras. A oração demonstra que confiamos mais na vontade de Deus do que nas nossas traiçoeiras vontades.

Escusado será dizer que o conto que Tolstói apelidou de “O diabo”, que só foi publicado após a sua morte, termina mal. Tanto no final original, como no final alternativo, sente-se o odor pútrido da culpa mortal. “Havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado e o pecado, sendo consumado, gera a morte” (Tiago 1:15). Por mais atraentes que sejam as sugestões prazerosas da Serpente, são sempre maléficas e destruidoras. Não é o conhecimento do bem e do mal que nos liberta, é o conhecimento da verdade. Jesus Cristo é a verdade. Quando vivemos em Cristo e fazemos a Sua vontade, encontramos finalmente a liberdade.


Jorge Oliveira
(Crónica publicada na edição nº 161 - Abril/Junho 2016, na Revista Refrigério)

quarta-feira, março 09, 2016

"As pregações lidas são uma seca!"

Há falta de concentração nestes dias. Há pouca paciência para escutar, ler, silenciar, reflectir. Em mim também. Não faltam distracções a tentar roubar-nos a atenção. Nas Igrejas evangélicas exige-se pregações curtas e estimulantes. O pregador Henry Ward Beecher (1813 - 1887) disse que "A melhor maneira de tornar breve um sermão, é torná-lo mais interessante". Alguns pregadores usam artifícios criativos para cativar a atenção dos ouvintes: histórias, ilustrações, piadas, imagens, vídeos. Nada contra. Uso esses recursos, principalmente nas lições da Escola Bíblica Dominical e, desde que contribuam efectivamente para realçar a mensagem, considero-os benéficos. A grande problemática dos ornamentos criativos é quando não realçam a verdade bíblica e se tornam o objectivo. O mais importante da mensagem não é o embrulho, é o conteúdo. O perigo do papel criativo na mensagem é ele próprio ser o papel principal da mensagem.

Por falar em papel, talvez muitos cristãos evangélicos actualmente não apreciem muito uma pregação lida do púlpito. Se o sermão (e já o termo é pesado para muitos hoje) for lido num tom monocórdico e demorar mais de meia hora, então é que não há mesmo pachorra. “Uma seca!”, dirão alguns jovens e outros menos jovens, porque isto da falta de paciência não é um exclusivo juvenil. E o que dizer da leitura de orações em público? Em certos contextos evangélicos, ler orações em público é capaz de ser considerada uma prática herética, uma formalidade arcaica, conotada aos costumes católico-romanos. Entendo estes anticorpos protestantes, mas recordo que o protestante Martinho Lutero costumava usar a Litania. A Litania é uma das formas mais antigas de oração cristã, provavelmente adaptada do culto da sinagoga pela Igreja primitiva. Era uma série de intercessões, súplicas e invocações lidas, seguidas por respostas da congregação. Hoje, são poucas as igrejas evangélicas que as utilizam - talvez a Reforma esteja demasiado afastada da realidade das nossas Igrejas. É pena.

Digo isto, não porque preconize que as pregações e orações devem ser exclusivamente lidas, mas para darmos importância ao que de facto é importante. Desprezar apressadamente a forma sem considerar a substância, é um erro. Embora geralmente escreva o esboço das minhas pregações, não o leio de forma discursiva. Também não costumo ler orações na minha congregação, mas tenho pensado numa oração que John Stott mencionou no final do seu excelente livro "Eu Creio na Pregação", e que ele costumava fazer quando subia ao púlpito:

“Pai celeste, curvamo-nos diante da Tua presença.
Que Tua Palavra seja a nossa regra,
O Teu Espírito, o nosso mestre,
e a Tua maior glória a nossa ocupação suprema,
por Jesus Cristo, nosso Senhor."


Transcrevi-a para a minha Bíblia. Rememoro-a algumas vezes antes de pregar. Não foi Stott que a escreveu, mas tornou-a sua. Faço-a minha também. Identifico-me com tudo o que ela exprime. É o mote desta crónica. Quero subir ao púlpito de joelhos, consciente da presença do Altíssimo. Intercedo para que Deus me ajude a pregar nos limites da Palavra. Oro para que O Espírito Santo ilumine, convença e console os corações dos ouvintes. Anseio, sobretudo, pela suprema glória de Deus.

O que realmente me interessa é se aquilo que é pronunciado, seja de forma espontânea, escrita ou lida glorifica de facto a Deus. Em vez de desaprovarmos tanto a forma das coisas, julguemos a sua essência. Não rejeitemos uma mensagem ou uma oração só porque não segue uma pretensa espontaneidade que nós próprios idealizamos. Os judeus recitavam Salmos e orações. A Igreja primitiva também. As únicas repetições que Jesus reprovou foram as vãs. E no que concerne à oração, Jesus deu-nos um padrão que os evangelistas registaram para nós lermos, meditarmos e repetirmos. O embrulho é importante, o conteúdo é mais.


Jorge Oliveira
(Crónica publicada na edição nº 160 - Inverno 2016, na Revista Refrigério)

quarta-feira, dezembro 03, 2014

Barro luminoso

Um destes dias levantei-me da cama do meu quarto e não acendi a luz. Estava muito escuro. Quando procurava tocar a porta, encontrei uma parede. Por breves instantes tive aquela horrível sensação de desorientação semelhante à cegueira. Avancei esbaforido para a porta, mas como estava entreaberta, bati desalmadamente com a cabeça na porta. Embora "cego", vi estrelas. O “galo” ainda cá canta.

No sexto sinal, dos oito descritos no Evangelho de João, há uma estranheza maior além da própria estranheza já inerente aos milagres. Jesus cuspiu na terra e untou os olhos de um cego. Alguém sugeriu que a seguir à morte, a cegueira é a talvez a maior perda de um ser humano. Impede-nos de vislumbrar as maravilhas de Deus e dos homens, restringe a vida e faz-nos depender totalmente dos outros. A cegueira, as doenças, o mal, a morte são consequências da entrada do pecado na humanidade. Todos nascemos cegos, todos somos pecadores (Rm 3:23; Rm 5:12; Ef 2:1; 5).

“Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?” perguntaram os discípulos a Jesus. O pensamento judaico era dominado pela lei da retaliação - quem está a sofrer é porque fez algum mal. Infelizmente ainda hoje muitos cristãos (evangélicos também!), ainda continuam prisioneiros desta lei. A Teologia da prosperidade, por exemplo, ensina precisamente esse erro: toda a doença, pobreza e males vem do diabo e do pecado pessoal. Quem está doente é porque fez algum pecado e precisa de um exorcismo (e de dar mais uns dízimos dobrados).

Não há dúvida que o Pecado é o maior problema da humanidade. É por causa dele que as pessoas são condenadas eternamente. A única solução para o pecado é a confissão, o arrependimento sincero e a aceitação do perdão de Deus, mediante o Senhor Jesus. Também é verdade que existem doenças, sofrimentos e adversidades que são consequência directa do pecado e das más atitudes (1 Co 11:30; Tg 5:15). Mas esta passagem (e outras) ensina que nem toda a doença e sofrimento procedem directamente de um pecado pessoal ou familiar.

Foi o próprio Jesus que esclareceu que aquela cegueira não estava relacionada com o pecado do cego ou dos seus pais, antes serviria para a manifestação das obras de Deus, para a salvação daquele pobre homem. Muitas vezes não conhecemos as razões porque nos sucedem algumas desgraças e aflições, mas se confiamos no soberano Deus, acreditemos que Ele tem tudo no seu controle e que nada nos acontece por acaso. Há “males” na nossa vida que servem para o bem! Servem os seus elevados propósitos.

Porque é que Jesus cuspiu na terra e colocou aquele barro nos olhos do cego? Não sei em concreto. Sei que Jesus é Deus e que pode usar os métodos que podem parecer-nos “estranhos”, mas que são sempre os melhores. Estaria neste barro uma alusão ao processo criador de Deus na formação inicial do homem com pó da terra (Gn 2:7)? Talvez. Calvino sugere que Jesus tapou com barro os olhos cegos do homem para intensificar ainda mais o milagre. O cego precisava ser ainda mais cego para que o sinal fosse inequívoco.

A seguir, Jesus mandou o cego lavar-se no tanque de Siloé (v. 7). Aquele que foi enviado pelo Pai, enviou o cego a banhos. Este tanque simbolizava um teste de fé e obediência para aquele homem. Ao contrário do chefe do Rei da Síria, Naamã (2 Re 5) o cego não questionou a estranheza e a simplicidade dos métodos divinos. Foi e lavou-se. Quando se lavou, começou a ver. Mas este milagre, para além de gerar curiosidade em muitos, provocou medo nos seus pais e inveja e descrença nos religiosos incrédulos.

Jesus foi novamente ao encontro do homem que tinha sido cego. Nesse precioso encontro, o que já não era cego começou finalmente a ver. Espiritualmente. Creu no Filho de Deus e adorou-O (v. 35-41). Jesus é a luz do mundo. Ele não só fez a luz, faz-se luz para que todos os que nele crêem não andem em trevas. Ele ilumina, perdoa, solta, anima e aviva. Que possamos também ser o barro luminoso nas suas mãos para este mundo em trevas. Que Ele nos ajude.