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segunda-feira, novembro 20, 2023

Ponto de Luz | Sara Tavares (1978-2023)


Ponto de Luz

Escutando no vento
Tua voz secreta
Que me sopra por dentro
Deixa-me ser só seu
No teu colo eu me entrego,
Para que me nutras
E me envolvas
Deixa-me ser só seu

Um ponto de luz
Que me seduz
Aceso na alma
Um ponto de luz que me conduz
Aceso na alma

Por trás dessa nuvem
Ardendo no céu
O fogo do sol raia
Eternamente quente
Liberta-me a mente
Liberta-me a mente

Um ponto de luz que me seduz aceso na alma
Um ponto de luz que me seduz aceso na alma


Sara Tavares
(1978-2023)

quinta-feira, janeiro 19, 2023

Soneto de Eugénio de Andrade

Amor desta tarde que arrefeceu
as mãos e os olhos que te dei;
amor exacto, vivo, desenhado
a fogo, onde eu próprio me queimei;

amor que me destrói e destruiu
a fria arquitectura desta tarde
– só a ti canto, que nem eu já sei
outra forma de ser e de encontrar-me.

Só a ti canto que não há razão
para que o frio que me queima os olhos
me trespasse e me suba ao coração;

só a ti canto, que não há desastre
de onde não posso ainda erguer-me
para encontrar de novo a tua face.



Eugénio de Andrade (1923-2005)
Poesia, Assírio & Alvim
centenarioeugeniodeandrade.pt.

sexta-feira, janeiro 17, 2020

Ser mais agradecido

"Tu que me deste tanto,
Dá-me uma coisa mais, um coração agradecido.
"

George Herbert
(Poeta britânico do século XVII)

sábado, novembro 09, 2019

O teu perfume ficou



Na fronteira da terra com o mar
foi colhida uma flor.
Era branca, com rasgos avermelhados.
Marcas da graça e do amor.
Risos do céu.
Cândida candura.

A noite escondeu o sol
e o frio trouxe o breu.
Nesse frescor outonal
a flor desvaneceu.
A brancura brilha nas trevas
ficará o teu perfume.


Jorge Oliveira
(Até já, José Carlos Oliveira)

quarta-feira, abril 25, 2018

25 de Abril

Na madrugada ouviu-se um canto
Uma criança que sonhava
Ser grande sem combater.

Correr solta nos campos
Campos de flores primaveris
Das papoilas e dos cravos

Grito de gaivota do mar
Soprado pelo vento livre
Somos livres para sonhar.

Jorge Oliveira

quinta-feira, setembro 21, 2017

Os elevados pensamentos de Deus


"Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o Senhor. Porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos." (Isaías 55:8-9).

Meditei hoje em Isaías 55. Um belíssimo poema vindo dos céus. Começa com o incentivo para não desperdiçarmos a nossa vida investindo em coisas vãs, mas a buscarmos o único que é bom: Deus. Ele está perto de nós. Quer saciar a nossa fome e sede espiritual. Precisamos buscá-lo, confessando as nossas muitas maldades e os nossos caminhos maus. Sendo Deus tão perfeito e excelso, Ele é grandioso em perdoar. Deus não é como nós, que quando nos ofendem ficamos logo amuados. Os nossos pensamentos são baixos, mesquinhos, curtos; os pensamentos do Senhor são elevados, bons, santos. Os pensamentos e planos de Deus a nosso respeito são de paz, de bênção, de amor (Jeremias 29:11). É por isso que quando a Palavra do Senhor é proclamada e acolhida, produz sempre bom frutos. A Palavra que sai da boca de Deus gera vida, alegria, perdão, paz. Os montes e os outeiros cantam aos céus, as árvores do campo aplaudem o Senhor. Grandioso é Deus! Grandiosos são os seus pensamentos.

quarta-feira, maio 24, 2017

Não seja eu mulher de Ló

Não seja eu
Mulher de Ló
Que petrificou
Sem piedade nem dó
Quando para trás um dia olhou

Não seja eu
Degenerado sal
Que perdendo o gosto
Do sabor celestial
Se fez estátua ao desgosto

Não seja eu
Ingrato no andar
Nem cobiçoso do querer
E mesmo quando eu tropeçar
Jamais deixe de correr

Jorge Oliveira

segunda-feira, março 06, 2017

O amor é maravilhoso!

Salvador Sobral - Amar Pelos Dois - Final | Festival da Canção 2017. Parabéns Salvador!

terça-feira, fevereiro 07, 2017

Aprender é ser

Aprender é muito mais do que adquirir conhecimentos, competências ou habilidades. Aprender é ser. Aprendemos de facto, quando a aprendizagem afecta o nosso carácter e muda maus saberes e comportamentos. Crescemos, quando pomos em prática o bem que conhecemos e o som da luz que vamos colhendo. Conhecimento que não nos transforma para o bem, é mau. Aprender é escutar melhor o céu. Quanto mais amamos, mais conhecemos.

terça-feira, novembro 15, 2016

Ler rima com escrever

Não se pode dissociar a escrita da leitura. Quanto menos leio, menos sei escrever. Quanto menos escrevo, menos leio. Escrevo pouco e mal, porque assim leio. No verso das sábias letras, ler rima bem com escrever. Vice-versa e versa-vice.

sexta-feira, outubro 28, 2016

Falta de tempo

Dizemos:
Falta-me sempre tempo.
Tempo para estudar
Tempo para trabalhar
Tempo para ouvir
Tempo para parar
Tempo para pensar
Tempo para respirar
Falta-nos tempo para arranjar tempo

Mas o tempo tem sempre tempo
A falta, nunca é do tempo.
Ainda não está escuro
Acertemo-nos
Enquanto há tempo.

Jorge Oliveira

quinta-feira, outubro 13, 2016

Prémio das letras

"Está fora de moda falar na eternidade, mas tanto Alexievich como Dylan serão imortais. Escrever é escrever. Um mau poeta será sempre pior do que um bom jornalista. Dylan é inegavelmente um grande escritor. A Academia sueca está a usar o Prémio Nobel para restaurar a literatura. Tomara que regresse à literatura oral. As histórias que não são escritas também podem ser grandes e imortais." Diz e, muito bem, o Miguel Esteves Cardoso hoje no Público.

Bob Dylan é o vencedor do Prémio Nobel da Literatura 2016 e eu rejubilo. O resto é letra. E cantigas. E muita inveja.

domingo, maio 08, 2016

Criar para o criador

"O Senhor que criou deve querer que nós criemos
E empreguemos a nossa criação de novo a seu serviço."


T. S. Eliot

segunda-feira, abril 11, 2016

Os piores ladrões

Os piores ladrões
são os que tentam
sonegar-nos a alma
consumir a calma
causando desavença
subtraindo-nos a crença

Gatunos que trabalham
misturados no rodopio
das imagens deste tempo
do presente momento
que na febre da feição
revela o pobre coração

Os larápios da sabedoria
sabem que na nossa
louca distracção
podem meter-nos a mão
pilhando-nos a bonança
roubando-nos a temperança

Estes farsantes demónios
uma coisa não furtam
É o brado pungente
do sublime Presente
que rasgado pela dor
outorgou-nos o Seu amor


Jorge Oliveira

terça-feira, junho 30, 2015

Maturar

Calar
Falar
Ouvir
Esperar
Recusar

Calar
quando dá vontade explosiva de berrar.

Falar
quando apetecer desistir de comunicar.

Ouvir
aqueles que pouco querem ouvir falar.

Esperar
mesmo que já ninguém queira sentar.

Recusar
beber o fel que tantos querem espalhar.

Maturar. Maturar. Maturar.


Jorge Oliveira

sábado, maio 16, 2015

Há uma Centelha


Na pior das tristezas e gemidos
há uma centelha pronta
que mesmo sem se a perceber
arde por querer arder.
Quer secar lágrimas e suspiros
apartar entranháveis trevas
prenunciar o amanhecer
sangrando o novo nascer.

Jorge Oliveira

sábado, abril 25, 2015

Lembrar e declamar a liberdade

Este ano o 25 de Abril começou para nós no dia 24. A Jéssica cantou e declamou brilhantemente alguns poemas de Jorge de Sena, Sophia de Mello Andresen e outros escritores, num espectáculo multimédia, promovido pelo Conservatório Regional de Gaia. Nunca esqueçamos que a liberdade teve um preço. Continua a ser importante lembrar e cantar a Grândola. Ontem e hoje.

segunda-feira, janeiro 05, 2015

O princípio do fim do gelo

A despeito de tanto gelo,
rejeito que me congelem.
Sacudo o frio cantando e
mesmo mancando, caminho.
A força que me compele não é minha.
É a chama do porvir,
que no entretanto presente,
se me ferve neste bulir.

Pode o gelo tolher-me
os pés,
as mãos,
a boca...
até paralisar a acção.
Nunca matará a alma.
O gélido reino pode feri-la
Mas nunca em mim
conseguirá calar o coração
d'Aquele que no princípio do fim
Ordenou: Haja Luz!

Jorge Oliveira

quinta-feira, novembro 13, 2014

A luz e o alarme

Quando faltou a luz o alarme tocou
A falta da luz fez tocar o alarme
O alarme parou quando a luz voltou.
Se a luz não falhasse o alarme não tocava
Se o alarme não tocasse a luz não voltava
Quando soou o alarme a luz retornou.
Foi assim que tudo bem ficou.


Jorge Oliveira

quarta-feira, maio 07, 2014

As mãos do mar

Ela procurava desesperadamente
a felicidade.
Tentava conter toda a água do oceano
que podia,
por entre os seus delgados dedos sempre
escapulia.

Todo tempo estiveram ali a paz e a alegria a
acenar,
não na pouca água que conseguia
agarrar,
nas muitas mãos do mar que a queriam suster e
abraçar.


Jorge Oliveira