Ainda estou chocado com a notícia da morte de duas irmãs em Lisboa. As mulheres, com 74 e 80 anos, não eram vistas desde o Natal e foram ontem encontradas mortas no apartamento onde viviam, já em adiantado estado de putrefacção. A irmã mais nova era doente com cancro e tendo falecido, deixou de prestar assistência à outra irmã de oitenta anos que, como estava já há algum tempo acamada, acabou também por morrer à fome e sede.
Incomoda-me esta maneira de ser e fazer cidade. Mexe comigo o crescente egoísmo e individualismo da nossa sociedade urbana. A estóica e sobranceira indiferença com o próximo.
Nada disto é novo e ao que parece é um fenómeno que está a aumentar. Segundo o jornal
Público, desde o início do ano, só em Lisboa, foram encontrados mortos em casa dez idosos.
Onde estavam os familiares, amigos e vizinhos destas duas pobres irmãs? Para que serve a igreja, a protecção civil, a segurança social, os políticos, as autarquias, as freguesias, os bombeiros, a polícia, se os velhos morrem sozinhos e abandonados? Sim, eu também sou culpado. Mas não quero ser.