Ontem à noite, no nosso culto a Deus em família, lemos uma
passagem curiosa. Jesus cura um cego cuspindo-lhe nos olhos, na aldeia de Betsaida.
Nesta época em que se fala tanto no respeito pelas regras e normas que conduzam a uma boa sociabilidade entre todas as pessoas e povos, observamos que Jesus tratou este homem desta forma tão estranha. Cuspir nos olhos de um cego!??
Jesus sempre teve uma forma peculiar e até muitas vezes extravagante para realizar os seus intentos. Ele quebrou com muitos dos preceitos religiosos e cerimoniais vigentes, desmontando muitos dos esquemas humanos ético-morais estabelecidos na sua época.
A Cristandade continua ainda hoje com muitos paradigmas, rituais, tradições e ideias preconcebidas sobre a maneira como Deus pode e tem que actuar. Em consequência disso, a maior parte das vezes, impede e até bloqueia, a manifestação real do poder de Deus. Tantas vezes alguns líderes religiosos tentam limitar Deus ou então encaixar os cristãos num padrão ritualista e denominacional. Quantas vezes esforçamo-nos por erigir aquilo que Jesus desmantelou à mais de dois mil anos. A síndrome do gueto fechado da “aldeia da roupa branca”. A mentalidade de que, os cristãos são melhores do que os não-cristãos. Ou então o conceito errado que, Deus ama mais uns que outros, etc.…
Jesus prestou atenção a um só homem. E cego. Deu-lhe do seu tempo. Levou-o para fora daquela aldeia. Movimentou-o. Conduziu-o para além do que aparentemente lhe tirava a visão. A aldeia, a causa provável da sua cegueira. O seu discernimento estava amarrado. Interessante que, depois de o curar, Jesus disse ao cego para não retornar para a aldeia. Por que razão? Não é bom publicitar as maravilhas que Deus faz? Será que Jesus não queria ser conhecido por causa dos seus milagres? Para que o homem não ficasse outra vez cego? Não sei bem.
O que é certo é que nascemos todos espiritualmente cegos e Deus deseja dar-nos visão espiritual. Deus quer curar a nossa vil e obstinada cegueira.
Vimos também nesta passagem, que a nossa percepção e os nossos sentidos são muito falaciosos. “Vejo os homens como árvores que andam” (vers. 24). Por essa e por outras razões nunca devemos confiar plenamente no que vemos ou no que não vemos.
Creio em milagres imediatos, mas nem todos os milagres de Deus são instantâneos. Muitos deles são progressivos. Primeiro a intervenção de Deus pode incidir num aspecto da nossa vida e mais tarde noutro. Vemos um pouco da sua graça agora e se tivermos fé e paciência, veremos mais tarde um pouco melhor. Umas vezes enxergamos apenas uma realidade distorcida, outras vezes vislumbramos claramente. Nesse processo, precisamos confiar na revelação da sua Palavra. Precisamos de Cristo. Do toque da sua mão.
Alguém disse: “O pior cego é o que não quer ver”.
Deixemos pois que Jesus “nos cuspa”. Que clareie a nossa visão espiritual. Que nos tire as escamas das más influências e dos preconceitos. Que desejemos ver, não só com os nosso olhos mas principalmente com os dele.
“Senhor, que eu veja…”