terça-feira, setembro 27, 2011

Schumann por Horowitz

São herança camponesa, as mãos.
Estas pequenas mãos, de geração
em geração, vêm de muito longe:
amassaram a cal, abriram sulcos
frementes na terra negra, semearam
e colheram, ordenharam cabras,
pegaram em forquilhas para limpar
currais: de sol a sol nenhum
trabalho lhes foi alheio.
Agora são assim: frágeis, delicadas,
nascidas para dar corpo a sons
que, noutras épocas, outras mãos
se obstinaram em escrever como
se escrevessem a própria vida.
Ao vê-las, ninguém diria que
a terra corria no seu sangue.
São mãos envelhecidas, mas no teclado
são capazes do inacreditável: juntar
nos mesmos compassos o rumor
dos bosques em setembro e os risos
infantis a caminho do mar.


In: Eugénio de Andrade. Os Sulcos da Sede. São Paulo: Editora Quasi, 5ª Edição, 2007, p. 19.
Ouça Schumann por Horowitz

2 comentários:

Rubinho Osório disse...

O texto é quase tão delicado e emocionante quanto a música que ouvimos com o coração. Ambos eram gênios! Desconfie que mesmo Deus se emocionava ao ouvir...

Jorge Oliveira disse...

Não sei se Deus chora, mas desconfio que foi Deus que inspirou a divina melodia de Schumann que serviu de pano de fundo às belas palavras de Eugénio de Andrade.