quarta-feira, abril 28, 2010

O conto do riso

Se havia uma coisa boa que os novos e carismáticos cristãos tinham descoberto no século XX tinha sido o riso. Saíram pelas portas dos tristes e bafientos templos medievais, alguns irrompendo da penumbra dos mosteiros, e redescobriram a alegria que há nos céus e na terra.

Olhando para cima, perceberam que afinal Deus também podia rir (poder-se-ia amar, sem sorrir?). A segurança e o contentamento das suas alegres almas estavam sobremodo embriagadas que não podiam parar de sorrir. Depois, naquele foliar louco do rir, desejaram viver sempre assim. Com o passar do tempo transformaram o culto a Deus num circo: da fé fizeram um Show, da oração uma guerra, do louvor um festim enlouquecido e alienado, da pregação o ponto alto da corda bamba do entretenimento – muitas histórias, piadas e anedotas. “Christian Stand-Up Comedy”. Havia até a "unção do riso!"
Inventaram-se Bíblias coloridas, livros e filmes para divertir e fazer rir as multidões dos novos e alegres crentes. Alguns tornaram-se mestres na arte de arrebatar as emoções, manipulando almas e mentes. Resolveram partir à conquista do mundo com o seu alargado e visionário sorriso e compraram jornais, canais de rádio e televisão.

Certo dia ouviu-se um soluço. Um gemido. Uma gota soltou-se do céu. Pensavam ser chuva. Mas não. Era O próprio Deus que chorava. Sangue. Os alegres e bem vestidos epilépticos da fé já nem sabiam como se chorava sem ser de riso. Tinham-se esquecido do alto valor do pranto. Já nem se lembravam quanto pecadores, miseráveis, pobres e maus eram. Agora, estavam prisioneiros na redoma efémera do seu hilariante circo. Gargalhando iam definhando. Rindo, morriam. E no final de tudo, choraram desgraçadamente por toda a eternidade.

1 comentário:

Rubinho Osório disse...

Tétrico... e profundo!